O livro “Viagem Pela Luz Das Estrelas à procura da ilha do Tesouro” (Editora Objetiva, 2009, 203 páginas), do escritor francês radicado na Suíça, Alex Capus, é um mergulho biográfico na vida do escritor clássico Robert Louis Stevenson (1850-1894), autor de obras-primas tais “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro“, além de roteiros de viagens e poemas que o marcaram como um conceituado escritor.
Atendo-se aqui à “Ilha do Tesouro”, é meritório as caracterizações das personagens, à identificação do pirata como sendo um indivíduo com uma perna de pau, mais um tapa-olho e um papagaio no seu costado. Quando miúdos nos identificamos com esses aventureiros que singravam os mares em busca dos seus botins, e mesmo Jack Sparrow (interpretado por Johnny Depp) remonta-nos a este espírito. Se investigarmos mais a fundo os motivos de admirarmos estes aventureiros, talvez esteja imbuído em nós aquele provérbio de que “ladrão que rouba ladrão merece cem anos de perdão”.
Longe de qualquer ressentimento ideológico, o ouro e a prata embarcados em alguns navios foram extraídos da América e levados para a Europa assim que esta perdeu o controlo das suas colónias. Algumas destas embarcações foram desviadas e roubadas, e assim surgiram as lendas de que alguns espólios foram enterrados em ilhas desconhecidas pela maioria, caindo o véu e ficando no imaginário – levando a muitos aventureiros a empreenderem missões caríssimas e, na grande maioria das vezes, saírem de mãos vazias.

Mas o mote aqui é Stevenson. Engana-se quem pensa que “A Ilha do Tesouro” é destinada ao público infanto-juvenil apenas. Trata-se de uma obra com viés universal. A veia de poeta verifica-se em passagens muito bem elaboradas e, num futuro próximo, prometo trazer análise específica aqui n’O Barrete. Como a análise de Capus é biográfica, é nos informado acerca do precário estado de saúde de Stevenson. Viveu muito pouco tempo, 44 anos, e sempre acometido de tuberculose. Magérrimo e em alguns registos quase cadavérico, o novelista compensava este estado de saúde com uma imaginação vivaz e uma paixão pelas aventuras incríveis.
Assim sendo, este escocês nascido em Edimburgo, quando jovem gostava de beber, frequentar prostíbulos, ficar no cais conversando à toa e escrever, não necessariamente nesta mesma ordem. Embarcava em navios e chegava a destinos longevos, sendo os Estados Unidos um deles, quando se apaixonou por uma mulher mais velha e já casada, Fanny, e com ela passou o resto dos seus dias. Este enlace desagradou os seus pais, que chegaram a cortar a mesada que destinavam ao filho, mas ainda bem que se resolveram e foram inclusive juntos a uma viagem insólita para uma ilha no Pacífico, Samoa.
Isso mesmo! Ainda longe da civilização, Vailima, Apia, se descortinava como um lugar no meio do nada, sendo o nada o grande oceano. O escritor chega com a sua agora esposa, a enteada e o esposo desta, o enteado, e juntos desbravarão o local e construir um lar que ficou como sendo o último paradeiro do aventureiro escritor. O que Capus especula é se a tão aventada ilha do Tesouro não fora descoberta realmente por Stevenson embora, obviamente, ele disfarçasse para não dar pistas a mais aventureiros e especuladores.

Especula-se sobre a ilha do Coco, sendo que existem na verdade algumas ilhas que levam este nome, uma mais famosa, na Costa Rica (América Central) e outra numa ilha do Pacífico. Na Costa Rica então, a citada foi escavada, virada de cabeça para baixo ao longo de décadas e nada foi encontrado, ficando apenas a lenda. Quase um ativo económico do país, ainda hoje certamente pelo turismo.
O imaginativo Stevenson guardou o segredo apenas para si? Seria apenas imaginação a sua Ilha do Tesouro? Porque, sendo agnóstico, teve como grande amigo e confidente um pastor em Vailima? O certo é que tendo a saúde instável, necessitava de cuidados extremados e sítios aventados ao redor do mundo poderiam ser um refrigério, mas Samoa estava longe de ser um lugar hospitaleiro e condizente com a vida de um tuberculoso. Certamente Davos, mas não uma inabitada ilha do Pacífico.
Capus teve contacto com dezenas de biografias de Stevenson, verificável nas notas e bibliografia consultada. Na intimidade familiar percebemos uma calma estoica do autor para aguentar tantas desavenças e inquietações, sendo a da mulher (uma artista frustrada) a pior. Refugiava-se na escrita e na imaginação, e mesmo de longe enviava os seus originais a editores do mundo inteiro.
Um livro interessante, que ilumina um dos grandes escritores da História da Humanidade e um convite para, após termos olhado pelo buraco da fechadura, adentrarmos a casa das ideias de Stevenson, não perdendo a perspetiva de que na maioria das vezes, o tesouro está dentro de nós e nem sempre se traduz por conquistas financeiras.
Escrever para OBarrete, por exemplo, é um grande tesouro meu.
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