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Autor do aclamado “Silêncio“, que foi levado às telas por Martin Scorsese em filme homónimo, o romancista japonês Shusaku Endo (1923-1996) é também autor de “Escândalo” (Editora Tusquets, 2019, 249 páginas). O que à primeira vista pode significar uma história de suspense e mistério se revela com o passar das páginas num mergulho na alma, numa introspecção necessária a cada um de nós. Com traços autobiográficos, Suguro é um renomado escritor e na casa dos 60 anos, prepara-se para receber um importante prémio, similar ao de Camões, só para terem uma noção. Uma penetra bêbada, Hina Ishiguro, é contida ao abordar o nosso protagonista e ser ignorada por ele.

Suguro afirma não a conhecer e que certamente ela se enganara a respeito da sua identidade. Ela é habitué de um bairro mal afamado de Tóquio e uma artista plástica que afirma ter pintado uma tela dele. Para preservar a imagem recatada do autor, respeitável aos olhos do seu público, essas visitas não cairiam bem. Só que na cerimónia de premiação, Suguro observa um duplo seu, com um sorriso enigmático e sombrio, este aparece e desaparece e ficamos sem entender se foi algo real ou fruto da imaginação.

Casado com uma respeitável senhora que sofre de dores nas juntas, principalmente no inverno, Suguro relaciona-se com o seu subeditor Kurimoto e tem amizade com o psicólogo e escritor Kano, também na sua faixa etária, que discorre sobre teorias freudianas e apresenta a brilhante tese do quanto sofremos ao nascer, expelidos da segurança e do conforto do líquido amniótico, para enfrentar as asperezas da vida. Talvez o escritório lúgubre de Suguro se assemelhe a este útero, ele recluso na sua vida profissional e pessoal.

O escritor japonês Shusaku Endo

Kobari é o repórter pobretão de uma revista sensacionalista. Calhou de estar na cerimónia de premiação e resolve investigar o caso Suguro. Visita o bairro boémio e como um cão perdigueiro segue as pistas que o levam a ter certeza de que o respeitável escritor é um devasso. Irá defrontar Suguro e a relação, como não poderia deixar de ser, é conflituosa. Kobari vende-se barato, não passa de um oportunista.

O próprio Suguro empreende uma investigação de modo a perseguir este seu duplo. Quem estaria por trás dessa tentativa de o comprometer, logo ele, um escritor respeitado e a sofrer de uma grave doença do fígado? Num passeio fortuito, entabula conversa com a diabinha Mitsu Morita, do nono ano, e numa tentativa vã de recuperar a sua libido, imagina como seria o corpo da menor. Ajuda-a financeiramente e com um trabalho de meio expediente, para que limpe o seu escritório, mas contêm-se no assédio, apresentando-a à esposa como uma jovem desajustada. Mas eis que os sonhos eróticos o invadem e essa contenção é questionada. Outra vez Freud com a sua conceção do “mal-estar da civilização”.

Nesta busca no bairro boémio, Madame Naruse será uma interlocutora interessante. Cheia de personalidade, revela os crimes do ex-marido na guerra Japão-China (1937-1945), quando queimou criancinhas indefesas (tudo em nome da guerra, onde tudo é permitido), sendo ela agora voluntária num hospital, atendendo a uma ala de miúdos. Revela a Suguro a maldade escondida no coração de aparentes inocentes crianças, que trazem em si o mal, e toda essa personalidade abala um pouco as convicções do nosso atormentado escritor.

O escritor de “Escândalo”, nascido em Tóquio, tinha a particularidade de ser católico – a população cristã no Japão é inferior a 1%. Batizado de Paul em 1934, Endo estudou literatura francesa de 1950 a 1953

Mas o que Naruse tem a ver com a artista plástica que supostamente pintou Suguro? Ela é amiga e confidente, sabendo que esta é sodomizada de bom grado em relações sexuais masoquistas e, se o gozo já foi descrito como uma pequena morte, as discussões sobre prazer e sofrimento ganham contornos surpreendentes.

Para lá da metade do romance, já nos questionamos se o sósia existe ou se este duplo de Suguro é o verdadeiro. Afinal, como pode um homem de moral ilibada ser acusado de frequentar um outro mundo? Mergulhamos nas frases com toda a emoção de não estarmos dentro do útero. Assim é a vida, com todas as suas aparências e fragilidades. Para complicar ainda mais o quadro, Madame Naruse (certamente a personagem mais complexa) aproxima-se de Mitsu e a embebeda, levando Suguro a participar de um abuso que confronta toda a sua moral. É Suguro mesmo? Ou estará ele a delirar? Leiam o livro para tirarem vossas próprias conclusões.

Romance intimista, cheio de reflexões e questionamentos, no meio dele imaginei-me na pele de Suguro. Indo além, o que está por trás das nossas respeitáveis fachadas de escritores sérios e compenetrados? Quantos demónios habitam as nossas almas e quais são os esforços de forma a contermos essas impulsividades? Um livro tocante e belo em todos os seus dilemas.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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