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“O Cemitério de Praga”: Teorias da conspiração

Às vezes, ao sabor dos lançamentos, lemos determinada obra e, olhando para trás, pode ser que a ligeireza e avidez possam comprometer uma real compreensão do texto, por mais que sublinhemos e anotemos determinados trechos. Cometi este pecado com “O Cemitério De Praga” (tradução de Joana Angélica d’Avila Melo; editora Record, 480 páginas) de Umberto Eco (1932-2016). Se a data de aquisição foi anotada na 1.ª página, 17/12/2011, somente agora destrinchei e revivi a personagem Simone Simonini que, ironia das ironias, sofre de amnésia eventual.

Este é um libertino: falsário, glutão e misógino, tem o DNA da traição na sua composição. Advogado frustrado que se viu despojado da sua herança devido às dívidas do avô, ganha proximidade de um dono do cartório e aprende ali o ofício de falsificar. Ao longo do processo, desconfia que as promissórias do avô haviam sido inventadas por Rebaudengo (o dono do cartório) e arranja uma forma de levá-lo à prisão, também por conveniência, afinal, a vingança é um prato que se serve frio.

Relendo a obra, entendo o motivo de o romance não se entregar à primeira. É necessário bastante atenção para acompanharmos a Europa da segunda metade do século XIX, notadamente uma Itália ainda fragmentada e as constantes insurreições na França. No começo, Eco situa o nosso protagonista como dono de um antiquário em Paris, mas isso é uma fachada para os seus negócios escusos. Meio desmemoriado, recorre à escrita de diários para se situar no tempo.

Percebe no seu domicílio vestes eclesiásticas e não temos a certeza se ele e o abade Dalla Piccola são a mesma pessoa, pois a esquizofrenia é a sua contumaz companheira. Percebe-se no romance a marca característica do autor: a profunda erudição e às vezes pouca concessão ao leitor. Há época, o livro desagradou a comunidade judaica e a Igreja Católica. Coitados, todo o radical tem dificuldades de entender o que é realidade e ficção. O mérito de Eco foi inserir na história factos e personagens reais, sendo Simonini a ficção.

O Cemitério situado na cidade de Praga, República Checa, tema central do romance de Umberto Eco
(https://hardecor.com.br/)

Via memória, o nosso falsário sabe que interveio sorrateiramente nas lutas dos Estados italianos. Agente duplo, assassino e facilitador, encontrou-se com o revolucionário Garibaldi, com o escritor mulato Alexandre Dumas e urdiu contra Vítor Emanuel. De forma a fazer desaparecer documentos, fez voar pelos ares um navio e este efeito colateral irritou por bastante os seus contratantes, que o designam a Paris. Vale a pena, pois somos presenteados com uma aula básica de História acerca dos Estados italianos e a sua unificação.

Simonini odeia os judeus, dos cascos ao focinho. Dispôs de documentos falsos e alude a um cemitério na capital da atual República Checa, Praga, onde judeus tramariam uma conspiração universal para tomar o poder das mãos dos cristãos. Via YouTube, assisti a um passeio por este cemitério judeu e ele é um conjunto de lápides socadas umas nas outras, sem imagens e sombrio. Um lugar ao qual não me interessarei a visitar.

Nesta conspiração será publicado o mítico Os Protocolos Dos Sábios De Sião e, será através deste documento que o facínora Adolf Hitler (1889-1945) encontrará o álibi para a eliminação do judeu da face da Terra, afinal, como se pode confiar num povo que assassinou Jesus Cristo? Para quem gosta de teorias da conspiração, “O Cemitério de Praga” é um prato cheio.

O nosso protagonista participa da Comuna de Paris e compreende que os “ismos” são os ingredientes de um mundo de ponta à cabeça: comunismo, ateísmo, socialismo, materialismo, satanismo, capitalismo, e a barafunda encontra conexão entre duas doenças do século: a franco maçonaria e o judaísmo. Convém agora atrelar essas duas associações tendo como intenção fabricar documentos pró-Igreja Católica e, para fabricar documentos falsos, nada melhor que Simonini, que também é intermediário de obras ficcionais que passam ao público como se verdades fossem. Ao fim de contas, não podemos nunca duvidar da credulidade do povo.

Espiões para cá e para lá, destaco no romance uma passagem elucidativa:

Ser visto como espião era muito rendoso porque todos procuravam lhe subtrair segredos que consideravam inestimáveis e se dispunham a gastar muito para lhe arrancar alguma confidência. Contudo, como não se queriam revelar, usavam por pretexto a atividade dele como tabelião, compensando-a sem pestanejar assim que ele apresentava uma conta exorbitante e, note-se, não somente pagando demais por um serviço notarial irrelevante como também não obtendo nenhuma informação. Simplesmente acreditavam tê-lo comprado e mantinham-se em paciente expectativa por alguma notícia.

O Narrador considera que Simonini se antecipava aos novos tempos: no fundo, com a difusão da imprensa livre e dos novos sistemas de informação, do telégrafo ao rádio já iminente, as notícias reservadas tornavam-se cada vez mais raras, e isso poderia provocar uma crise na profissão de agente secreto. Melhor não possuir nenhum segredo, mas aparentar possuí-los. Era como viver de rendas ou gozar dos proventos de uma patente: você fica de papo para o ar, os outros se vangloriam de ter recebido de você revelações perturbadoras, a sua fama se revigora e o dinheiro chega com facilidade.

A maçonaria é pormenorizada através de um ex-membro que dá com a língua nos dentes e entrega-nos tudo. Cada ritual de iniciação mais macabro que o outro, sendo Diana Vaughan uma mistura de histérica que encontra a purgação, tornando-se praticamente uma santa, e interessante o pensamento de que somos excelentes numa determinada coisa quando somos redimidos dos pecados de outrora, da mesma forma que polícias limpos se assemelham a janotas, é preciso antes ser criminoso para se converter num bom oficial.

Livros são publicados com inconfidências, revistas populares circulam com polémicas e financiamentos escusos, sendo que em muitos destes empreendimentos Simonini leva boas comissões. Manchetes cada vez mais sensacionalistas, um público ávido por consumir segredos e, ironia das ironias, ao editar este número da Revista Conhece-te, baixou em mim esse espírito zombeteiro. A caracterização do judeu como animal, com focinho de porco e adiposidades compõem as charges e ilustrações discriminatórias que na vida real seriam usadas pela propaganda nazi. Realmente, ao longo da leitura devemos nos ater à ficção, pois muitas passagens são repugnantes.

O escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco

Um livro prazeroso de se ler e, como apêndice a esta análise especial, selecionarei na seção de pensamentos & reflexões (última página desta) uma seleta de trechos polémicos que espero que seja do gosto de todos vocês. Escandalizem-se à vontade, eu também me escandalizei (e ri) ao revisitar esta obra-prima de Umberto Eco. Destaco alguns pensamentos do autor:

A afirmação de que Cristo era judeu é uma lenda divulgada precisamente pelos judeus, como eram São Paulo e os quatro evangelistas. Na realidade, Jesus era de raça céltica, como nós, franceses, que só muito tarde fomos conquistados pelos latinos. E, antes de serem emasculados pelos latinos, os celtas eram um povo conquistador; já ouviram falar dos gálatas, que chegaram até à Grécia? A Galileia chama-se assim por causa dos gauleses, que a colonizaram. Por outro lado, o mito de uma virgem que teria parido um filho é um mito céltico e druídico.

Jesus, basta olhar todos os retratos que temos dele, era louro e de olhos azuis. Falava contra os usos, as superstições, os vícios dos judeus e, ao contrário de tudo o que os judeus esperavam do Messias, dizia que o seu reino não era deste mundo. E, se os judeus eram monoteístas, Cristo lança a ideia da Trindade, inspirando-se no politeísmo céltico. Foi por isso que o mataram. Judas era Caifás que o condenou, judeu era Judas que o traiu, judeu era Pedro que o renegou...

Os sentimentos fundamentais que animam o espírito talmúdico são uma ambição desmesurada de dominar o mundo, uma avidez insaciável por possuir todas as riquezas dos não judeus, o rancor ante os cristãos e Jesus Cristo. Enquanto Israel não se converter a Jesus, os países cristãos que hospedam esse povo serão sempre considerados por ele como um lago aberto onde todo judeu pode pescar livremente, como afirma o Talmude.

Certas notícias explosivas, se você as der de uma só vez, as pessoas esquecem-nas depois da primeira impressão. Convém, ao contrário, destilá-las aos poucos, e cada nova notícia reacenderá, inclusive, a lembrança da precedente.

A principal característica das pessoas é que elas se dispõem a acreditar em tudo. Aliás, sem a credulidade universal, como poderia a Igreja ter resistido quase 2 mil anos?

Uma mística é uma histérica que encontrou o seu confessor antes do seu médico.

Conferi o que eu já tinha usado para os discursos precedentes do rabino. Os judeus propunham-se a apoderar das vias férreas, das minas, das florestas, da administração, dos impostos, do latifúndio; visavam à magistratura, à advocacia, à instrução pública; queriam infiltrar-se na filosofia, na política, na ciência, na arte e, sobretudo, na medicina, porque um médico entra nas famílias mais facilmente do que um padre.

Quanto aos jornais, o plano judaico prevê uma liberdade de imprensa fictícia, que sirva para o maior controlo das opiniões. Dizem os nossos rabinos que será preciso apoderar-se do maior número de periódicos, de modo que expressem opiniões aparentemente diferentes, a fim de dar a impressão de uma livre circulação de ideias, ao passo que, na realidade, todos refletirão as ideias dos dominadores judeus. Observem que comprar os jornalistas não será difícil, porque eles constituem uma maçonaria e nenhum editor terá coragem de revelar a trama que liga todos à mesma ordem, uma vez que ninguém é admitido ao mundo dos jornais sem ter tomado parte de algum negócio, escuso na sua vida privada.

A falta de piedade pelas classes inferiores e a exploração do pobre por parte do rico, segundo o Kahal, não são crimes, mas virtudes, quando praticadas por um filho de Israel.

As guerras constituem a saída mais eficaz e natural para frear o crescimento do número de seres humanos.

Como o senhor deve ter compreendido, caro advogado, frequentemente a política é decidida por nós, humílimos servidores do Estado, mais do que por aqueles que, aos olhos do povo, governam…

Mas eu devia ser conciso e essencial, como convém a um relatório secreto, pois sabe-se que os agentes da polícia não são literatos nem conseguem ir além de duas ou três páginas.

Disseram-me que a profissão médica está entre as mais praticadas pelos judeus, tanto quanto o empréstimo a juros. Sem dúvida, é melhor nunca precisar de dinheiro e jamais cair doente.

Os tolos precisam de ter sob as cobertas uma mulher, ou um rapazinho, para não se sentirem sós. Não sabem que a água na boca é melhor do que uma ereção.

Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.

Quanto aos católicos, desde os primeiros dias da minha conversão eu sabia que muitos deles estão convencidos de que o Grande Arquiteto do Universo – o Ser Supremo dos maçons – é o diabo. Ótimo, eu precisava apenas de enriquecer essa convicção.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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