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Cinema: termómetro e termostato da vida

O Cinema tem sido uma das formas mais populares e influentes de entretenimento em todo o mundo há mais de um século. Ao longo dos anos, o Cinema tem evoluído e se adaptado às mudanças na sociedade, refletindo e influenciando as tendências culturais e políticas. Neste sentido, pode-se dizer que o Cinema é um termómetro e um termostato da vida, capaz de capturar a essência do mundo que o rodeia e moldar a forma como pensamos e agimos. A magia do Cinema está precisamente aí: na sua capacidade em mostrar como é o mundo, através da ficção, e de influenciar/mudar a nossa própria realidade.

O Cinema como termómetro da vida

“Apocalypse Now” (1979)

Uma das principais funções do Cinema é refletir sobre o estado da sociedade e do mundo em que vivemos. Os filmes podem ser vistos como espelhos que mostram como as pessoas pensam, agem e se relacionam umas com as outras em determinado momento histórico. Desde os primeiros filmes mudos até às produções de hoje, o Cinema tem acompanhado as mudanças na cultura e na política, capturando os valores e as preocupações da sociedade em cada época. Esta é uma das grandes missões do Cinema: concretamente, a sua ousadia em mostrar toda a evolução mais autêntica das mentalidades humanas e das tendências mais atuais.

Por exemplo, durante a Grande Depressão, na década de 1930, o Cinema de Hollywood refletiu a ansiedade e a incerteza da época em filmes como “As Quatro Irmãs” (1933) e “A Irmã da Minha Noiva” (1938). Da mesma forma, na década de 1960, o Cinema refletiu a revolução social e cultural da época com filmes como “Bonnie and Clyde” (1967) e “Easy Rider” (1969). O Cinema é, portanto, deveras importante para imortalizar sentimentos coletivos e para assinalar mudanças significativas — políticas, sociais e humanas —, que ficaram marcadas na história e que, assim, têm uma nova forma de expressão.

Além disso, o Cinema tem sido um meio importante para retratar outras questões sociais e políticas importantes, como a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, a guerra do Vietnam e o movimento feminista. Filmes como “A cor púrpura” (1985), “Apocalypse Now” (1979) e “Erin Brockovich” (2000) são exemplos de como o Cinema pode ser usado para conscientizar e educar sobre questões importantes da sociedade. Desta forma, percebe-se a importância do Cinema como meio artístico de intervenção e de consciencialização para o que se passa no mundo — que, através do grande ecrã, consegue ser descomplexado e simplificado.

O Cinema como termostato da vida

“O Padrinho” (1972)

Além de reflectir a sociedade, o Cinema também tem o poder de influenciar a forma como pensamos e agimos. Os filmes podem moldar as nossas crenças, os nossos valores e os nossos comportamentos, funcionando como um termostato que regula a temperatura emocional da sociedade. Desde os primeiros filmes mudos até às produções atuais, o Cinema tem desempenhado um papel importante na construção e mudança de culturas. Por isso, além de o Cinema ter a capacidade de mostrar ao espectador a realidade, também ele próprio, por isso mesmo, passa a fazer parte dela e, portanto, tem a força de a influenciar.

Por exemplo, o filme “O Padrinho” (1972) ajudou a popularizar a imagem do mafioso italiano e influenciou a forma como a cultura popular americana entendeu a máfia enquanto conceito. Da mesma forma, o filme “A Rede Social” (2010) ajudou a moldar a perceção pública do Facebook e de Mark Zuckerberg. Entende-se, então, que o Cinema tem uma ambivalência notável, na medida em que é capaz de tocar em todo o tipo de temas/temáticas e de os/as explorar com a devida profundidade, sempre com uma componente muito humana, interventiva e de consciencialização.

Além disso, o Cinema pode ser usado como uma ferramenta para a mudança social e política. Filmes como “Uma Verdade Inconveniente” (2006) e “Orca – Fúria Animal” (2013) tiveram um impacto significativo na opinião pública sobre o aquecimento global e o tratamento de animais em cativeiro, respetivamente. Com efeito, o Cinema, além de ter em atenção questões que influenciam diretamente o Homem, tem também a preocupação de se virar para a Natureza e para o Ambiente, sendo capaz de moldar mentalidades e de direcionar a nossa linha de pensamento e de ação para o que é verdadeiramente importante.

O Cinema como espelho de nós mesmos

“Close Up” (1990)

Assim, o Cinema tem sido uma forma de arte que cativa o público e que capta a atenção da sociedade, afirmando-se como um importante meio de comunicação, que pode transmitir mensagens e ideias de forma eficaz para grandes audiências. Além disso, o Cinema é um meio de entretenimento que tem a capacidade de unir as pessoas em torno de uma experiência compartilhada. Deste modo, é um espaço público onde pessoas de diferentes origens e com diferentes perspetivas se podem reunir para assistir a um filme e discutir sobre ele, criando um senso de comunidade e conexão que é único em relação a outras formas de entretenimento.

No entanto, o Cinema também pode ser criticado por perpetuar estereótipos e preconceitos culturais, como, por exemplo, a falta de diversidade na representação de minorias ou de mulheres na indústria cinematográfica. Essas questões refletem a sociedade em que vivemos e precisam de ser abordadas para que o Cinema possa ser um meio mais inclusivo e representativo. É, por isso, importante que a Sétima Arte continue a evoluir e a adaptar-se às mudanças no mundo, promovendo a diversidade e a inclusão, para que possa continuar a desempenhar um papel importante na cultura. O Cinema possibilita, precisamente, uma viagem sem fim pela nossa própria interioridade.

O Cinema é um espelho que reflete a vida, mas que também pode moldá-la

Abbas Kiarostami (1940 — 2016)

[poeta, cineasta, argumentista, produtor e fotógrafo iraniano]

Porque a arte somos nós.

Tiago Ferreira

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