Todos os artistas têm diferentes inspirações, percursos e métodos de criação. Formas de ver o mundo em seu redor totalmente distintas – uma condição inerente a todos nós – resultando os mesmos em seres especiais no mundo. É nesta base que partimos para o documentário de Gary Hustwit, “Eno”, exibido na presente edição no Festival de Cinema Porto/Post/Doc, que teve lugar na cidade do Porto, entre os dias 22 e 30 de Novembro.
Importante salientar a introdução do programador e diretor do Festival, Dario Oliveira, que nos deslumbra com o facto de que as exibições de “Eno” são todas diferentes na sua narrativa consoante as exibições em sala, devido a um software generativo inédito desenvolvido por Hustwit e pelo artista digital Brendan Dawes. Ora, nada podia ser mais provocador do que ter uma experiência totalmente diferente comparativamente a outros públicos igualmente interessados na vida e obra de Brian Eno, músico, produtor, pintor e artista plástico que abre e partilha o seu passado em camadas não lineares, numa narrativa que se percebe ser moldada de forma algo arbitrária, mas fidedigna e respeitosa às pegadas deste gigante contemporâneo.
O foco do Porto/Post/Doc é partilhar, discutir e relembrar o Conhecimento, de modo a podermos todos os dias estar abertos a novas ideias e processos que tornem a nossa vida individual e em comunidade, melhores. “Eno” foca-se nesse processo enquanto documentário, uma categoria cinematográfica rica e, analisada e complementada com outras fontes de conhecimento, torna-se fulcral na aprendizagem acerca do nosso passado, presente e futuro. Brian Peter George St. John le Baptiste de la Salle Eno (1948-) é um privilegiado, pois trabalhou, ajudou e criou obras que ficarão marcadas no mundo (principalmente) da música, mostrando também aptidões para outras manifestações artísticas. Seguiremos como a narrativa da obra, livre.

“Eno” revela-nos um artista bem humorado e disposto a abrir o seu espaço ao espectador. Este aceitou o convite do cineasta norte-americano Gary Hustwit em poder retratar uma viagem ao passado, mas também mostrar o local e processo de criação do artista ex-Roxy Music. Lembremos o filme “Rams“, realizado e produzido também por Hustwit, que retrata a vida e obra do designer Dieter Rams, onde a intimidade acontece com o artista e não com o homem – apesar destas duas personalidades estarem interligadas -, sendo revelados diferentes modos de abraçar a obra em si, mas também um espelho da ambição do próprio criador.
Desta forma, através de uma câmara de filmar o espetador é transportado para o desenvolvimento das ideias e, muitas vezes, para o seu resultado final através de um vasto arquivo – com aval do próprio artista. “Eno”, por sua vez, está repleto de entrevistas, declarações de músicos como David Bowie, Bono, David Byrne ou John Cale, mas sempre com um fio condutor de Brian Eno a pautar as suas viagens e análises ao passado. O resto da diversão ficou ao encargo do realizador, pois é sempre desafiante pensar que uma só longa-metragem se pode transformar em muitas outras.
Enquanto tenho como banda sonora para este texto o álbum “Discreet Music“, editado em 1975 (Brian Eno a solo), lembro um dado curioso referido no filme. Segundo Eno, David Bowie admitiu que ao longo da sua batalha com a cocaína entre 1974 e 1976 (a denominada white diet, à base de leite e cocaína), só conseguia ouvir o disco “Discreet Music”, pois só este o acalmava numa realidade exigente e destrutiva, repetindo o mesmo vezes sem conta. Outras curiosidades são expostas ao longo do filme, com Brian a procurar muitas vezes um tom cómico e irónico no que toca a lembrar certos episódios.
Como nos esclarece “Eno” a certa altura, muitos dos músicos do final da década de 1960 e início de 1970 provêm das escolas de arte, mais precisamente da pintura. Destino ou casualidade, o rock and roll tornou-se um desejo incontrolável para Brian Eno, quer seja pela sua ousadia sonora ou visual. Este era apaixonado por roupa e pela vertente andrógena, onde o homem se pode parecer à mulher sem o realmente ser – o glam rock enfeitiçou o artista, uma montra para ambas as paixões. Já através da música, Eno decidiu explorar os sintetizadores e artistas dos ciclos mais underground, tais como Terry Riley ou John Cage, que desafiavam os limites do som (ou silêncio) como Arte.
Apesar de não saber ler uma pauta, a experimentação e dedicação no campo sonoro levaram Brian Eno a criar e participar em obras basilares no mundo da música. Em 1974, Eno edita o seu primeiro trabalho a solo, “Here Come the Warm Jets”, imbuído numa vertente experimental e com amigos à mistura, tais como Robert Fripp ou Phil Manzanera. Este último foi colega de Eno nos Roxy Music, um grupo que procurou sempre a vanguarda do glam rock através de construções musicais ligadas ao progressivo e experimental (visão que acabaria por se desenvolver em faixas mais pop no futuro, mas não menos interessantes).
Através dos Roxy Music, Eno desenvolveu as suas capacidades enquanto produtor e criador de paisagens sonoras. Apesar de no filme só ser mencionado o primeiro trabalho da banda britânica, “Roxy Music” (1972), é em “For Your Pleasure” que o teclista demonstra uma sensibilidade e assertividade peculiares. Contudo, a sua passagem pelos Roxy foi um mero começo de uma caminhada que viria a ganhar outro alento enquanto produtor, por exemplo, de “Unforgettable Fire“, dos irlandeses U2. Através de vídeos que remontam a 1984, compreendemos que Eno tem uma aura especial, capaz de desafiar e baralhar os processos de artistas já consolidados em busca de uma alma que suplica por se libertar. Um ponto de viragem na carreira dos U2.
Se através da ousadia de Brian Eno os U2 cresceram na vertente da composição sonora, comercialmente também podem agradecer ao produtor britânico, que teria novamente o seu toque de midas em “Joshua Tree” (1987). Pelo caminho, Eno criou parte do cenário sonoro da “falsa” trilogia de Berlim de David Bowie (em foco “Low” e “Heroes”, ambos editados em 1977, pois “Lodger” é já gravado noutra fase e Eno só é creditado em alguns instrumentos). De louvar a sua influência em faixas como Subterraneans ou Moss Garden, revelando Eno que esta última surge de um conflito de ideias por parte do mesmo e de Bowie.
Mas de que forma? Através de cartões com frases aleatórias que Brian escreveu ao longo dos anos, resultando assim num jogo que obriga a pessoa a obedecer ao que está escrito na carta escolhida. Um dos muitos caminhos que a arte possibilita, tal como a narrativa desta longa-metragem, é a possibilidade de uma metamorfose da obra sem a debilitar, transformando-a. É nessa arbitrariedade que “Eno”, através de pequenos loadings informáticos, vai moldando a história de um artista que se abriu a todas as possibilidades e métodos, a fim de complementar algo na nossa humanidade: criar uma banda-sonora para o nosso quotidiano. Exemplo disso é o álbum “Ambient 1: Music For Airports” (1978).
Este último, a somar às curiosidades partilhadas nesta obra, foi inspirado no aeroporto da cidade alemã Colónia – na altura recente – que se destacava pela sua arquitetura moderna e imponente, mas no seu interior ecoavam músicas tradicionais germânicas bem alto! Ora, Brian Eno tinha outros planos para esse espaço, tendo assim desenvolvido o ambiente sonoro ideal para um lugar utilizado por milhares de pessoas diariamente. Assumidamente, o filme abraça esse mesmo processo, pois procura através do desafio narrativo chegar a diferentes públicos de diversas formas, sem nunca perder identidade ou personalidade. Saliento que nesta categoria cinematográfica é especialmente importante destacar constantemente o elemento principal, a luz do nosso farol.
Desta forma, Gary Hustwit vai-nos presenteando com várias memórias de Brain Eno, um exercício que o próprio aceita de boa vontade. É primordial a forma como o realizador se conecta à alma do personagem principal, pois só assim o espetador consegue chegar perto e ter uma experiência intensa do trabalho, desafios e, até, dos sentimentos de uma pessoa que cria mas também ajuda a criar. Nunca estamos sozinhos, sendo que o outro será sempre um complemento no nosso caminho, de maneiras que “Eno” se transforma numa aula digna de doutoramento em qualquer tipo de arte ou disciplina.
Com um currículo que se distingue em bandas como os Devo – um processo arbitrário e difícil em estúdio – Ultravox e artistas como Peter Gabriel, Grace Jones ou John Hassell, Brian Eno transformou-se na realeza da produção, um artista que vê além da própria música. Este procura significados, personalidade e algo que só alguém muito ambicioso consegue perceber que o infinito existe, ou seja, haverá sempre algo novo, algo que nunca ninguém viu ou ouviu. Desta forma, “Eno” será sempre uma experiência única e obrigatória para qualquer fã de Brian Peter George St. John le Baptiste de la Salle Eno.
Preservando (ou não) uma característica tradicional do documentário, “Eno” é cordial no sentido em que não nos aproximamos do indivíduo enquanto cidadão no mundo, pois a sua privacidade é apenas exposta até ao limite das suas obras. Contudo, tendo em conta a riqueza da sua carreira, fica a faltar um pouco do seu lado de artista plástico. Uma vertente que provavelmente caberia numa longa-metragem mais longa (ou minissérie, muito em voga nestes dias), que complementaria na perfeição um retrato estimulante e basilar para a maioria dos artistas contemporâneos.
Relembrando o facto de ter assistido a uma narrativa única, “Eno” com certeza será um dos pontos altos do Festival de Cinema Porto/Post/Doc 2024. O filme, inserido na categoria Transmission, cumpre o lema de uma Europa em constante transformação, por vezes agarrada ao passado, e com um rumo inserto, tal como o de um artista.
“… com imagens nunca antes vistas e música inédita. Cada projeção de “Eno” é única e destina-se a ser vivida ao vivo. A qualidade generativa e infinitamente interativa de “Eno” ressoa poeticamente com a própria prática criativa do artista, com os seus métodos de utilização da tecnologia para compor música num mergulho profundo e interminável até à essência da criatividade.“
Excerto do texto da apresentação do filme “Eno”
Vejam filmes, ouçam música, vão a museus, pois só assim a compreensão do mundo poderá um ser (um pouco) mais completa.