“Quando decidi procurar um médico em Nova Iorque, o vazamento que eu estava a sofrer não era apenas no pénis e a disfunção não se restringia ao esfíncter da bexiga – e a próxima crise que me aguardava não era algo que implicaria apenas uma perda física, como eu tinha esperanças de que fosse o caso. Dessa vez era a minha mente, e dessa vez eu estava a ter mais do que um aviso prévio, porém, ao que parecia, não muito mais que isso.”
“Fantasma Sai de Cena”
“O Fantasma Sai de Cena” (Editora Companhia das Letras, 2008, 282 páginas) narra a vida do escritor recluso Nathan Zuckerman. Onze anos fora de Nova Iorque, convivendo apenas com um casal de caseiros e sentindo saudades do convívio do sistemático amigo Larry Holles, ele sofre com um cancro na próstata e incomoda-se bastante com as fraldas e a goteira a qual se transformou o seu pénis.
Este estar fora mais de uma década faz o nosso protagonista estranhar em larga escala o comportamento das pessoas, falando de modo atabalhoado ao telemóvel (será que o mundo enlouqueceu?) e, enquanto espera o resultado dos exames, hospedando-se num hotel, sai a perambular e um anúncio numa revista literária irá virar a sua vida de ponta cabeça. Neste, um casal propõe uma troca de residências por um ano, pretendendo morar uma temporada no campo e Zuckerman, sem nada para fazer, disca o número e agenda um encontro.

O casal que o receciona não poderia ser mais antagónico: por esses meandros do coração, enquanto Jamie Logan é uma guapa de 28 anos e beldade que salta aos olhos, o seu esposo Billy é opaco e prestativo. Parece fazer todas as vontades da mulher e, sendo ambos escritores iniciantes, anseiam por um refúgio no campo. Somos brindados com um amor platónico, mas cheio de tesão, do nosso protagonista por Jamie. Mas como alimentar o desejo se o órgão em questão não faz mais que pingar? Dilema existencial e que aponta para o paradoxo das nossas vontades e possibilidades. Como se eu almejasse ser o guarda-redes do Real Madrid!
O pano de fundo deste encontro é o resultado da reeleição de George W. Bush, o republicano visto como o diabo com chifres e tudo. Terrorismo? Qual nada! Terrorismo é viver sob o regime de exceção de um despreparado texano que se manterá na presidência, mesmo com toda a sua cretinice.
O mundo de Zuckermann está no passado. O fantasma aparece quando ele se encontra sem querer com Amy Bellete, uma beldade do passado (bem o tipo de Jamie) e que está com uma cicatriz horrorosa na cabeça, resultado de um cancro ao qual trata. Ela foi a musa no passado do escritor E. I. Lonoff, referência para o iniciante Zuckermann que o entrevistou certa feita.
Presenciou inclusive um escândalo de sua esposa com Amy, que assumiu o lugar na vida e no coração do escritor. Com o passar dos anos, a sua obra não vingou e o sucesso passou ao largo. Se o que conta é o q da qualidade ao q da quantidade, Zuckermann vai a um alfarrabista e adquire alguns livros de Lonoff, para rever algumas passagens.
Entra em cena Richard Kliman, repórter com pretensão de se tornar escritor e que, acreditem(!), pretende escrever uma biografia de Lonoff. Sensacionalista, por assim dizer. O livro faz uma crítica àqueles que bisbilhotam a vida das personalidades, sem se atentarem para a criação artística em si. Fazendo uma analogia com o presente, quando um livro de um príncipe Harry se torna best-seller mundial, é sintoma de que as pessoas estão acometidas de estupidez, levada à quinta potência. Mas, voltando: ele arrola Zuckermann na esperança de que este lhe confidenciaria segredos.
O encontro torna-se nada amistoso no momento em que o nosso protagonista enxerga no interlocutor apenas um arrivista sem nenhum escrúpulo. Os diálogos e insultos são duros, quando Kliman o acusa de cheirar à morte. Perceção equivocada, pensa Zuckermann. Ele fede é à urina, que acabou de vazar do seu fraldão.
Com uma trama muito bem costurada, o repórter é amigo de Jamie e ela tenta interceder em prol desta entrevista. Nada feito, e a quebra da narrativa romanceada dá-se quando Zuckermann, imaginando cenas, escreve peças eróticas das mais corriqueiras seduzindo a mulher de Billy.
O nosso protagonista sabe que está a agir por impulsos. O mais correto seria pegar no resultado dos exames, mesmo que as pequenas cirurgias não surtissem efeitos ele bem poderia continuar gotejando enquanto se banhasse no rio ao fundo da sua residência no campo, e que o desvario ficasse apenas na imaginação. Bastava um telefonema para desfazer o negócio e ficamos na expectativa.
O encontro com Amy é doloroso. A ex-beldade é agora uma velha com a cabeça costurada. Mora num muquifo e está esperando a morte. Já foi assediada pelo repórter inconveniente e Zuckermann quer ajudá-la. Deixa-lhe algum dinheiro e pretende, assim que retornar ao hotel, enviar-lhe um cheque. Ela desabafa:
“Ele quer escrever a biografia que eu não queria que ninguém escrevesse. Uma biografia, Nathan. Eu não quero isso. É uma segunda morte. É mais uma maneira de pôr fim a uma vida, encerrando toda uma vida em concreto, pra sempre. A biografia é uma patente de uma vida – e quem é esse garoto pra ter essa patente? Quem é ele pra julgar o Manny? Fixar a imagem dele pra sempre na cabeça das pessoas? Você não acha que ele é uma pessoa extremamente superficial?“
Quando ficamos retirados do mundo, uma volta se dá com dificuldades. A nossa bolha protege-nos da sentença sartriana de que “o inferno são os outros”. Com prosa fluida e sedutora, fazendo do ordinário sentenças de extremo lirismo, Philip Roth apresenta-se como um escritor das antigas, quando era bem distinto ser um intelectual de uma celebridade e, por mais que ele não se arvorasse a sê-lo, escreveu uma obra que permanecerá com o tempo, como um retrato de uma época problemática e insana. A vida como ela é.
Encerro com um trecho brilhante que atesta a ineficácia de uma biografia, a ver:
“Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efémera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas. Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante.“
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