Quando existe uma perda significativa na nossa vida – seja ela emocional ou até física –, parece que o mundo desaba completamente. Podemos, inclusive, levar essa dor connosco para sempre, não conseguindo fazer o closure essencial para voltar a encarar a vida positivamente. Neste sentido, o passado, presente e futuro parecem misturar-se, uma vez que deixa de haver uma realidade concreta para nós, presos ao que já foi: as memórias tomam conta de nós e a realidade e a ilusão fundem-se, dificultando o nosso trabalho em encontrar uma diferença entre elas.
Muitas destas questões são abordadas no filme “The Boy and the Heron” (2023) – “O Rapaz e a Garça“, título em português – a mais recente película, e a última da carreira, do aclamado realizador japonês Hayao Miyazaki, que regressa ao cinema após anunciar a sua reforma em 2016. A obra resulta de uma adaptação do romance homónimo de Genzaburo Yoshino, publicado em 1937, que aborda questões filosóficas sobre o sentido da vida e sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade.

Concretamente, o filme conta a história de Mahito, um rapaz de 15 anos que sofreu uma perda significativa num incêndio e que se muda com o pai e madrasta para uma pequena cidade rural, onde encontra uma garça falante que o leva a um mundo mágico dentro de uma torre abandonada. Neste mundo, Mahito vive diversas aventuras e encontra personagens sui generis, que o ajudam a compreender-se melhor a si mesmo e ao mundo que o rodeia.
É possível dividir a narrativa em duas partes: na primeira, Mahito vive o seu luto e tenta compreender e aceitar a sua perda. Efectivamente, ele é um rapaz introvertido e solitário, que tem dificuldade em expressar as suas emoções. Já a Garça, que é uma criatura mágica e benevolente, ajuda-o a encontrar o caminho para a cura; na segunda, Mahito explora um mundo paralelo, onde conhece uma série de personagens estranhas e fascinantes. Desta forma, aprende sobre a natureza da vida e da morte, e começa a compreender melhor o seu lugar no mundo.
Decerto, a relação entre Mahito e a Garça é uma metáfora para a relação entre a vida e a morte: a Garça guia Mahito no seu caminho da cura, representando a esperança e a possibilidade de renovação. Por outro lado, o mundo paralelo é um lugar de beleza e mistério, significando o potencial da vida, isto é, o que ela pode ser se nos permitirmos viver plenamente. Ou seja, a grande mensagem do filme é de esperança e renovação, sugerindo que a morte não é o fim, mas sim um novo começo.
“The Boy and the Heron”, que combina o estilo tradicional do Studio Ghibli com técnicas modernas de computação gráfica, é visualmente deslumbrante, com cenários detalhados e coloridos, que contrastam com a atmosfera sombria e bélica da época da Segunda Guerra Mundial – na qual se situa a história. A obra é, igualmente, sonoramente impressionante, com uma banda sonora original composta por Joe Hisaishi, que acompanha de forma muito consistente as emoções e as ações dos personagens. O filme é, ainda, enriquecido pelas vozes dos atores que dão vida às personagens, destacando-se Soma Santoki como Mahito, Masaki Suda como a Garça e Takuya Kimura como o tio-avô de Mahito.
Acima de tudo, a história é uma reflexão crítica sobre o significado da existência humana, que se inspira na obra literária de Yoshino, mas que também incorpora elementos autobiográficos de Miyazaki. Deste modo, explora temas como a morte, a memória, a identidade, a família, a amizade, a guerra, a paz, a natureza, a arte, a ciência, a religião, a ética e a política, através de uma narrativa que mistura realidade e fantasia, e que desafia o espectador a questionar-se sobre o seu próprio modo de vida. No fundo, ao longo da sua aventura, Mahito é confrontado com as suas próprias limitações e preconceitos, e é obrigado a crescer e a amadurecer.
Uma das mensagens mais importantes da obra é, também, a importância da empatia. Mahito, inicialmente, é um rapaz introvertido e algo arrogante, não conseguindo compreender verdadeiramente o sofrimento dos outros, estando sempre pronto a julgar. No entanto, à medida que conhece as criaturas do mundo alternativo, começa a abrir o seu coração e a aprender a ver o mundo sob uma nova perspetiva. Outra mensagem importante da história é a importância da conexão com a natureza. Mahito, ao entrar no mundo alternativo, é confrontado com a beleza e a magia da natureza, aprendendo a apreciar a simplicidade da vida e a encontrar paz interior na natureza.
Assim, “The Boy and the Heron” é uma homenagem à cultura e história japonesas, mas também uma mensagem universal de esperança e de amor pela vida, que transcende as fronteiras geográficas e temporais. Toda a narrativa é, sem dúvida, um testemunho da genialidade e da sensibilidade de Miyazaki, que nos oferece uma obra que nos toca e que nos transforma.
Por um cinema feliz.
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