Quando se pensa na realidade do nosso tempo existem dois conceitos fundamentais: sociedade de massas e liquidez. Como o escritor José Maurício de Carvalho esclarece, o primeiro vem do filósofo espanhol Ortega y Gasset, célebre pela publicação “Rebelião das Massas” (1930) e o segundo vem do sociólogo polaco Zygmunt Bauman, autor do clássico “Modernidade Líquida” (2000). Embora com 70 anos de distância, estas obras retratam as mudanças sociais e o seu impacto na vida das pessoas. Falar de uma sociedade de massas e de um homem sem capacidade crítica, infantil e imaturo, ou inculto, como descreve Ortega, ajuda a explicar porque é tão fácil que as redes sociais divulguem o ódio e a violência como coisas banais.
Nelas se confundem o desrespeito e as fake news com liberdade de expressão, grosseira e ignorância com liberdade de ação, destruição dos programas sociais e desrespeito ambiental com metas razoáveis do governo, para não falar das críticas à ciência, à racionalidade e à inteligência no geral, ‘deboche’ sobre a verdade, coisas impensáveis até há algumas décadas. Por outro lado, liquidez exprime o facto de que vivemos num tempo de rápidas mudanças onde tudo pode acontecer e nada está seguro. A vida muda, sempre se transformou, mas no presente falamos de uma mutação intensa e profunda desta mesma vida, valores, saberes, gostos, amores, instituições, universo de trabalho, etc.

A mistura destes dois conceitos ajuda a entender os nossos dias e trazem-nos para perto de uma realidade complexa que se tornou diária nas clínicas de psicoterapia. Psiquiatras, psicólogos e filósofos clínicos recebem pacientes que não sabem como se posicionar nessa nova realidade social, nem viver com o que aprenderam. Ou porque os seus valores não foram atualizados, as suas crenças estão em discordância das atuais, o seu entendimento do mundo já não é vigente, o universo do trabalho já não funciona como este estava habituado, as relações afetivas tornaram-se extremamente instáveis, superficiais e curtas, longe do amor eterno que sonhavam.
Soma-se a isso o enfraquecimento das instituições como clubes, família, igrejas, apoio dos amigos, familiares e até os Estados Nacionais não possuem já tanta força. O discurso da meritocracia entregou a cada um a responsabilidade pelo rumo da própria vida, e a responsabilidade por eventuais desvios e fracassos cai no colo do sujeito. É do próprio indivíduo a exclusiva responsabilidade de não viver o que ele espera e não realizar os seus planos existenciais. Tudo isto deixa milhões de pessoas perdidas e sem saber como viver nesse espaço social. Essa desorientação é vivida dentro dos consultórios com muito sofrimento, tanto pelos conflitos internos que as mudanças causaram, tanto pela falta de capacidade em comunicar com a base social.
Essa realidade foi amplamente analisada a partir da volumosa obra de Zygmunt Bauman. Os seus 40 livros oferecem uma visão de todas essas mudanças, e os diálogos que Bauman estabeleceu com notáveis filósofos e psicólogos apresenta-nos a sua visão dos nossos dias e a melhor forma de lidar com o presente. Com uma obra tão extensa e sobre tão amplas e variadas questões, é compreensível que quando o filósofo passa da descrição do que vivemos para as sugestões do que devemos fazer e qual o melhor caminho a seguir nos nossos dias, surjam vários reparos a fazer.
No livro “Zygmunt Bauman e a liquidez, considerações sobre a vida em permanente mudança” (Conselheiro Lafaiete, MPR Edições, 862 páginas, 2026) agora editado, apresentamos o essencial das contribuições de Bauman. É uma obra basilar de modo a entendermos e vivermos este início do século XXI e completa a análise da realidade proposta em “Introdução à razão vital de Ortega y Gasset” (Londrina: Cefil, 2002) e “Ortega e o nosso tempo” (São Paulo: Filoczar, 2016).
Zygmunt Bauman (1925-2017) é um dos mais importantes pensadores dos nossos tempos. Por outro lado, o filósofo, psicólogo e pedagogo José Maurício de Carvalho, autor de 40 (quarenta) livros, é uma das maiores e mais respeitadas vozes da filosofia brasileira e portuguesa. Assim, o livro “Zygmunt Bauman e a liquidez; considerações sobre a vida em permanente mudança”, 41.º na sua vitoriosa carreira, promete uma profunda reflexão sobre a vida e os seus dilemas.
O livro foi publicado pela MPR Edições. O editor Marcelo Pereira Rodrigues, que foi aluno de José Maurício na Universidade Federal de São João del-Rey e tem a satisfação de editá-lo mensalmente na Revista Conhece-te, já há mais de duas décadas explica: “Lembro-me das brilhantes aulas do professor José Maurício e uma das suas frases que me marcou foi a de que o verdadeiro filósofo discutia os assuntos da sua época. Na prática, ao longo de mais de 20 anos, tenho percebido isso nos seus artigos enviados para a Conhece-te“.
Assim, a MPR Edições oferece mais uma obra de qualidade e com peso intelectual, contribuindo para o debate das ideias no cenário brasileiro e português.
Informações:
Preço do livro: 30 euros (taxa de envio pelos correios à parte)
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