No que respeita ao estrelato do cinema contemporâneo, não tem havido corpo mais sexualizado do que o da atriz e produtora Sydney Sweeney. O que, à partida, tornava particularmente irónica a escolha de interpretar uma jovem freira, na iminência de fazer os seus votos de pobreza, castidade e obediência. Acontece que nas entranhas do horror de “Immaculate” – “Imaculada“, título em português -, a figura da atriz, em particular a sua capacidade gestativa, é vital para o mito narrativo. Sendo a Igreja a instituição conspiradora dos enredos divinos.
Indício precoce de que o argumento de Andrew Lobel centra-se, em grande medida, no corpo de Sweeney é o comentário provocador de um polícia. A caminho de um convento na zona rural italiana, Cecilia (Sweeney) é inquirida e revistada pela guarda, uma vez que não tem bilhete para voltar aos Estados Unidos, de onde é nativa. Apesar de estar tudo conforme, não se livra do comentário “que desperdício“, proferido em italiano, para que não entenda. Em cima dele, outro polícia pergunta-lhe se juntar-se ao convento foi uma decisão difícil. Após uns instantes de confusão, a jovem responde-lhe com convicção amarga: “Não o vejo como uma decisão“.

Ao longo da História, por crença ou privação, foram incontáveis as mulheres renunciadas que se tornaram propriedade da Igreja. Esta cedência de si próprias deu azo aos mais tenebrosos abusos, sob a forma de subjugação, humilhação ou tortura física e psicológica. Razão suficiente para justificar o apelo dos realizadores em metaforizar a dinâmica de poderes no seio clerical, através da gramática visual do género de terror. No caso de Michael Mohan, que assina esta longa-metragem, o interesse está na dramatização da incapacidade da protagonista ter uma palavra a dizer sobre o seu corpo.
Compelida pelo Nosso Senhor, Cecilia entrega-se às ordens da Madre Superior (Dora Romano) e do patriarcado, aqui representado mais comumente pelo padre Sal Tedeschi (Álvaro Morte), que emana boa convivência. Durante o primeiro ato, vagueia pela escuridão de um convento contaminado pela ansiedade. Os sustos inconsequentes sucedem-se uns atrás dos outros, numa tentativa desesperada de impor um tom hostil. Sendo que o problema destes sobressaltos está no facto de serem mais eficientes pelo som repentino do que pelo peso obscuro das imagens. Sem desprezo para com a arte do jumpscare, cabe-me aqui sublinhar como “Hermana muerte” (2023), de Paco Plaza, constrói uma atmosfera inquietante sem este recurso.
Por outro lado, é nas cenas menos investidas no medo que a encenação adquire algum deslumbre e sofisticação. Sobretudo nos interlúdios litúrgicos, onde os hábitos homogéneos e o cenário imponente conferem um misticismo digno de nota. De prisão ameaçadora, o convento transforma-se num local celestial, propício aos atos de fé. Podem ser sequências transitórias, mas não são passageiras. Deixam a sua marca estilística. Escapam do genérico e contribuem com alguma densidade a uma narrativa de pouca intriga.
No seu pior, “Immaculate” recorda os capítulos mais medíocres do universo cinematográfico “The Conjuring” (2013 –), nos quais a psique das personagens não passa de adorno. Pecado capital que restringe o filme de envolvimento superior, apesar de cenas como a tentativa de fuga de Cecilia, onde a vemos coberta de sangue a correr num prado verde-escuro, com o céu nublado em pano de fundo, transmitirem merecida aflição. Instantes de glória que não compensam a evocação mansa do macabro em território sagrado, muito menos as insuficiências na elaboração dramatúrgica.
Longe de ser o novo “A Semente do Diabo” (1968), também não é caso para Roman Polanski se indignar. O exercício seco e obscuro de Michael Mohan levanta as suas questões sobre repressão feminina, optando por ficar pela rama. Mesmo Sydney Sweeney, que promete levar mais pessoas ao cinema do que seria expectável para um encontro desta natureza, consegue uma interpretação compenetrada, ainda que prosaica. O que lhe acresce interesse é, de facto, a metaanálise de Sweeney enquanto sex symbol. Em várias entrevistas, refere que o escrutínio lascivo e a incapacidade de controlar o que dizem sobre o seu corpo levam-na a não saber como reagir. Graças a Deus, o mesmo não acontece no filme.
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