A autoria da “Odisseia“, poema épico fundador da literatura ocidental, é atribuída ao poeta Homero, da Grécia Antiga (928 a. C.- 898 a. C). Existem várias polémicas sobre a sua real existência histórica, mas ele é a personificação coletiva de toda a memória dos gregos, a culminância de séculos de histórias contadas oralmente.
A “Odisseia” narra a perigosa jornada de dez anos do herói Odisseu, também conhecido como Ulisses, para retornar à sua casa na ilha de Ítaca, após a
guerra de Troia, enquanto a sua esposa, Penélope, resiste aos pretendentes estrangeiros que não desejavam somente o seu amor, mas o poder do seu reino. Penélope não é ingénua. Esta tem um pensamento político. Não quer entregar o governo a estranhos, que, certamente, matariam o seu filho, Telémaco. E assim, bordando um sudário, aguarda a chegada improvável do seu amado Odisseu.
A partir dessa história, “odisseia” passa a ser sinónimo de travessia longa, cheia de aventuras, provações, percalços, perigos. O homem atirado ao mar da vida, enfrentando ciladas, tempestades noturnas, contando exclusivamente com a sua inteligência e astúcia. Visando o seu autoconhecimento. Alcançando o fundo da
sua consciência.

A “Odisseia” continua a inspirar o cinema contemporâneo. O filme “A Odisseia” de Christopher Nolan (1970), realizador, argumentista e produtor britânico, é grandioso, bárbaro, melancólico. Odisseu é interpretado com força contida por Matt Damon; Anne Hathaway é uma altiva Penélope e Tom Holland, um jovem atordoado e confuso Telémaco, em busca da sua identidade. Mas a maior controvérsia é uma Helena de Troia negra, encarnada na pele luzidia de Lupita Nyong’o. Surge o debate: Helena sempre foi mostrada com pele e cabelos claros. Homero não a descreve fisicamente em detalhes.
Deixemos cada leitor imaginar o seu ideal de beleza. Uma Helena negra revelaria a presença de etíopes entre os gregos. Uma deusa de ébano incorporando as trágicas irmãs gémeas, Helena e Clitemnestra, esposa vingativa de Agamenon. A pesquisa, no entanto, remete ao facto de que Helena era prima de Penélope. Christopher Nolan dá um toque ousado e poético com essa escolha.
Os cenários são reais, localizações espalhadas pela Europa e Norte de África. E todas as fabulosas fantasias transpondo a realidade para o plano místico estão lá: os furacões que inundam e partem os navios ao meio; sereias sedutoras e fatais, com as suas vozes que puxam os viajantes para a morte; ninfas que tentam manter Odisseu prisioneiro, como Calipso, ofertando-lhe a flor azul e alucinógena de lótus; Circe, a feiticeira envelhecida no ódio e na maldade, horrenda, arrancando com as próprias mãos os espíritos de porcos encravados nos homens; a alma do advinho Tirésias, entre zombies bebedores de sangue. Odisseu guerreiro, de instinto prático, indomável, estrategista, artesão, criatura e criador, capaz de tecer redes, moldar armas e reconstruir navios.
Sufocando a sua emoção ao rever Penélope, Odisseu usa um ardil para combater os famigerados pretendentes instalados no seu palácio. Entra no território inimigo disfarçado de mendigo. Evita o peito aberto. Infiltra-se. Luta corpo a corpo. O final é feliz. Penélope e Odisseu embarcando num navio rumo ao sol poente. O eterno convívio do grego com o mar. Com sede de expansão do sonho do alargamento de fronteiras geográficas e psíquicas.
Um filme como “A Odisseia” faz repensar a necessidade de nos arremessarmos ao desconhecido, aos mares e ao espaço, com coragem e esperança. Algo extraordinário, potente. A luta contra o fatalismo do Destino, tendo a razão como única bússola.
Pensando em Odisseu, escrevi um poema erótico, na voz de uma sereia:
“Vem, Odisseu,
Detém teu barco,
Sou sereia sedutora,
Sirena suave
Que atrai para o abismo.
Vem, meu navegante,
Para a minha caverna,
Minha gruta secreta
Onde te devoro
E te encanto.
Vem, meu bravo,
Venceste Tróia
Com a tua astúcia,
Descansa na minha ilha,
Entre penhascos negros
E precipícios de espumas.
Vem,
Sou sereia,
Cauda de peixe,
Toda vulva,
Estranho molusco
Que te descarna
E te sepulta
Nos baixios do mar.“
Pintura de William Etty, “As Sereias e Ulisses” (1825)
O OBarrete quer continuar a trazer as melhores análises e embarcar em novas aventuras. Clica aqui e ajuda-nos, com o mínimo que seja, a conseguir os nossos objetivos!