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“A Travessia de Eva”: Existencialista

“Tudo pode acontecer, até o pior. Pois o pior também ronda na matilha das possibilidades. A hiena da desgraça passeia ao acaso em meio à banalidade.”


“A Travessia de Eva”

O livro “A Travessia de Eva” (editora Bertrand Brasil, 2005, 160 páginas, traduzido por Marcelo Dias Almada), do escritor francês Pierre Péju, nascido em 1946, é excelente! Também filósofo e ensaísta, sobressaem-se na história estas interseções, acrescidas de um vasto grupo de autores clássicos que são citados, sem pedantismo.

Tudo gira à volta de três personagens, com ação na região da Cartuxa (França), um ambiente rural, montanhoso e bucólico. Narrado por uma voz onisciente, o personagem principal não deixa de ser o livreiro Étienne Vollard, dono de um sebo que encontrou profissionalmente a sua vocação ao ficar enfurnado na toca entre os seus mimos. Obeso, cento e dez quilos, ruivo e de óculos, sempre foi um indivíduo afastado e de poucas palavras. Outrossim, tinha o hábito de ficar a murmurar trechos inteiros de livros os quais havia lido, afinal, leitor era o seu ofício existencial. Linda a passagem onde o autor descreve um sebo, ou seja, uma loja de livros novos e usados, a ver:

Um lugar que certos jovens do futuro não poderão sequer imaginar, pois não haverá nada semelhante, não haverá essa mistura de ordem minuciosa e de bagunça, essa mistura de afeição pelos livros e de amontoamento selvagem. Um comércio em pequena escala. Comércio discreto mas essencial. Resistência a tudo o mais, pelo texto, pela impressão. Reservatório anódino, mas explosivo. Estoques de fogo de artifício, capazes de iluminar um detalhe da vida, assim como extensões inteiras da existência.

O filosofo, escritor e ensaísta francês Pierre Péju

Se o urso sai da toca, é apenas para negociar livros, por vezes adquirindo coleções completas. A bordo do seu autocarro, num fim de tarde chuvoso não consegue imobilizar o veículo a tempo de evitar um atropelamento. A desembestada miúda Eva atravessa sem ver e é atirada ao ar como uma boneca de pano. Torpor geral. Ela tinha saído da escola e não foi apanhada pela relapsa mãe Thérèse. Atrasar-se era uma norma, contudo neste dia Eva havia decidido tentar a sorte e encontrar o apartamento sozinha… acabando vitimada.

Se leitores incautos acreditam piamente que a vocação de todas as mulheres é ser mãe, com Thérèse dá-se exatamente o contrário. Ela vive de subemprego a subemprego, gosta de flanar e no seu mutismo existencial, mal conversa com a filha. Costuma apanhar um comboio e dar um breve passeio por Paris. Nada afeita a livros, traz um diário na sua mala e escreve observações intimistas, tal:

Em razão de um detalhe, um sinal que eu visse flutuar ao redor dos seus corpos, ao redor dos seus rostos, do qual eles nem sequer suspeitassem. Suas infâncias mortas, eu as vejo. Suas vidas fracassadas, de uma banalidade de fazer chorar, eu as vejo. Tipos bem aparentados, desses que se imaginam bem-sucedidos em qualquer coisa, mas cujas vidas são piores que a minha. Essa miséria, eu a vejo. E o medo deles também eu vejo. É como um apelo. Eva foi-me dada assim. Um gesto, uma entonação que me comovia, e, logo depois, um pai fantasma.

Quando os polícias ficam a par da condição inocente do livreiro, libertam-no enquanto Eva é levada em estado grave para o hospital. Autómato a princípio, o Vollard sai com a sua camionete sem rumo e encontra abrigo no meio da floresta, rolando barranco abaixo e ficando num estado deplorável. Urra com toda a força da sua alma, de modo a libertar fantasmas e o medo. Mesmo inocente, sente-se culpado pelo acontecido. O rosto da menina fica-lhe na memória, naquele encontro de face com o vidro do para-brisas.

Quando a mãe fica a par do ocorrido, após uma busca incessante pela filha, dirige-se ao hospital e, no dia seguinte, Vollard lá chega também todo estropiado e a partir daí laços de ternura irão surgir entre ele e a miúda em coma. A conversa do livreiro com a mãe é lacónica, pois ela não possui mesmo o dom de se expressar, ele tampouco, e assim os dias seguintes no hospital mostrarão um pai? tio? padrinho? mais presente que a própria mãe. Tocante a passagem onde ele lê para Eva trechos de histórias infantis, chegando a declamar mesmo. As enfermeiras recomendam isso e assim os dias se vão passando.

Pierre Péju

Eva recuperará, mas não sairá do seu mutismo. A fala foi comprometida e a jovem rapariga, de saúde precária, sobreviverá com ataques epiléticos e, desta forma, quando o livreiro acredita que as visitas e a relação com a mesma terminarão, ledo engano. Descaradamente, Thérèse dirige-se à sua livraria, intitulada “O Verbo Ser” e pede-lhe que visite a filha no hospital, pois ela terá que trabalhar durante várias horas num lugar afastado.

No sofrimento e na dor, idílio e amizade. O livreiro passeará com Eva, a despeito de ela se cansar facilmente. Brinca com os pés na água do regato e a ternura vai aumentando. Todos no hospital já se acostumaram àquela figura bondosa. Eva é frágil como um graveto, a sua pele quase chega a ser translúcida de tão branca e infelizmente partirá em breve para o eterno, se é que existe…

Momentos de conduta ridícula irão surgir na vida de Étienne Vollard, que ousará saltar de bungee jumping graças aos risos sarcásticos de um grupo de jovens ali presentes. Como se desgraça pouca fosse uma treta, a sua livraria é incendiada, num acidente causado por um curto-circuito e do espólio de livros só restarão as cinzas. A morte de Eva coincide com a morte da livraria. Futuramente, esta abrigará um salão de cabeleireiro (comércio muito mais vantajoso para os dias de hoje) e caberá ao nosso protagonista o salto final, agora sem o elástico que lhe prenderia os tornozelos.

Um livro entremeado de citações literárias, numa ode de amor aos livros que já, a despeito de pessoas que não conseguem conversar, têm ao menos a companhia destes amigos silenciosos e encadernados. Uma história que toca o leitor e que me emocionou do início ao fim, entendendo que a minha farmácia do futuro será talvez um sarcófago cheio de livros.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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