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“The Graduate”: Flutuando na incerteza

Mesmo após uma bonita sequência de conquistas, nunca é fácil lidar com as expectativas que os outros criam para nós. Até podemos ter um caminho objectivo na nossa cabeça, mas há certas pessoas que se vão cruzar com os nossos desígnios e, mesmo que sem intenção, dificultar a concretização de certos sonhos. Muita da nossa maturidade é ganha nesse processo: nesse limbo, nessa incerteza entre descobrirmos o que queremos para nós e percebermos o que realmente somos.

Estas inquietações são exploradas em “The Graduate”, realizado por Mike Nichols e com estreia em 1967. Esta é uma obra que transcende o rótulo de uma simples comédia dramática, tendo-se estabelecido como um marco cultural e cinematográfico. Adaptado do romance homónimo de Charles Webb, o filme capta com precisão cirúrgica os anseios, frustrações e o vazio existencial de uma geração confrontada com as expectativas de uma sociedade em transformação. Através da história de Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), um recém-licenciado perdido entre a pressão dos mais velhos e a procura por um propósito à sua imagem, o realizador propõe uma crítica mordaz ao conformismo da classe média americana e ao choque geracional que definiu os anos 60.

Benjamin Braddock (Dustin Hoffman)

Benjamin é o arquétipo de um jovem desorientado. Recém-saído da universidade, este regressa ao lar suburbano dos pais carregado de conquistas académicas, mas desprovido de qualquer rumo ou entusiasmo. A sua apatia é palpável nas primeiras cenas, quando flutua na piscina de casa, um símbolo da estagnação e do isolamento. Dustin Hoffman, numa interpretação – a sua primeira – que mistura vulnerabilidade e sarcasmo, dá vida a este personagem que parece rejeitar tanto o mundo materialista dos adultos quanto as próprias possibilidades de uma rebelião.

A icónica frase sobre plásticos, dita por um amigo da família como conselho de carreira, resume o conflito central de “The Graduate”: a visão pragmática e vazia de sucesso, oferecida pela geração mais velha, choca com a procura de Benjamin por algo mais significativo, ainda que ele não saiba exatamente o quê. Esta ambiguidade é o que torna a personagem tão humana, especialmente para uma audiência jovem que, em 1967, começava a questionar os valores tradicionais.

Benjamin e Mrs. Robinson (Anne Bancroft)

A inclusão de Mrs. Robinson (Anne Bancroft) à narrativa adiciona boas camadas de complexidade à longa-metragem. Mais do que uma mera femme fatale, a personagem é uma figura trágica, uma mulher presa num casamento sem amor e numa vida de aparências. A sua sedução para com Benjamin não é apenas um ato de desejo, mas uma tentativa desesperada de recuperar o controlo e a juventude que lhe foram negados. A actriz traz-nos, de facto, uma performance hipnotizante, equilibrando sensualidade e melancolia, acompanhada pela banda sonora de Simon & Garfunkel — com particular destaque para Mrs. Robinson — a amplificar toda a ironia e tristeza da sua personagem.

O caso entre Benjamin e Mrs. Robinson serve também como metáfora para a corrupção da inocência juvenil, em choque com as gerações anteriores. O nosso protagonista é seduzido, não apenas por uma mulher mais velha, mas por todo um sistema de valores que inicialmente rejeita, mas relativamente ao qual acaba por ceder. A relação, porém, não é romantizada: é fria, mecânica e, em última análise, insatisfatória para ambos, refletindo a superficialidade das conexões humanas num mundo obcecado por status.

Elaine Robinson (Katharine Ross) e Benjamin

A segunda metade do filme muda de tom com a entrada em cena de Elaine Robinson (Katharine Ross), filha de Mrs. Robinson e o novo objeto de afeto de Benjamin. Aqui, “The Graduate” faz flirt com o romantismo e entregasse completamente a ele. A perseguição de Benjamin por Elaine, culminando na famosa – e brilhante – cena durante a cerimónia de casamento, é tanto um ato de rebelião quanto uma procura desesperada por redenção. No entanto, Mike Nichols subverte as expectativas do público ao dizer adeus ao filme com uma nota ambígua: na cena no autocarro, os sorrisos iniciais dão lugar a expressões de incerteza… O que parecia uma vitória romântica revela-se uma fuga sem um destino concreto.

Este desfecho é um dos pontos mais brilhantes da obra. Em vez de oferecer uma resolução simplista, o cineasta sugere que a revolta de Benjamin e Elaine pode ser apenas a troca de uma prisão por outra. Ou seja, eles rejeitam o mundo dos pais, mas não têm um plano para o substituir. Assim, esta ambivalência acaba por refletir o espírito dos anos 60: uma era de questionamento radical, mas também de incerteza acerca do futuro.

Por um lado, poder-se-á dizer que falta uma reviravolta — inteligente e com sentido — para o argumento ser, de facto, completo; no entanto, a linearidade da narrativa é um dos pontos fortes, funcionando bastante bem, muito por força da grande interpretação de Dustin Hoffman. Desta forma, “The Graduate” é sensível, humano, profundo e tocante, e consegue ser tudo isso pelos olhos do nosso protagonista, que se está a descobrir a ele mesmo, incessantemente. Até encontrar algo maior que ele próprio, sabendo finalmente que tinha de ir por ali — até ao fim.

Apesar disso, é também legítimo afirmar que a obra entra num certo território genérico no seu terceiro ato, não se conseguindo reinventar a dado momento. Torna-se algo previsível também por causa disso, mas é dicotómico, pois esse período também joga a favor da história, uma vez que espelha o sofrimento silencioso da figura central.

“The Graduate” (1967)

A realização de Mike Nichols é um triunfo de estilo e substância. A câmara subjectiva, os enquadramentos claustrofóbicos e o uso simbólico da água criam uma atmosfera que espelha todo o estado interior de Benjamin. A banda sonora de Simon & Garfunkel, com músicas como The Sound of Silence e Scarborough Fair, não apenas complementa a narrativa, como consegue elevá-la, tornando-se um elemento inseparável – e inesquecível – da experiência para o espectador. Obra que também foi revolucionária na sua abordagem honesta à sexualidade e ao descontentamento juvenil, pavimentando o caminho para o cinema da Nova Hollywood.

Assim, “The Graduate” traduz uma inquietação universal: o que significa encontrar o nosso lugar num mundo que parece já ter decidido por nós mesmos? Deste modo, o filme é uma crítica à alienação gerada pelo materialismo e às tensões entre gerações, mas é também um retracto sensível do estado natural de confusão da juventude. Mais de cinco décadas após estrear, a sua intenção continua a ecoar, não por oferecer respostas, mas por fazer as perguntas certas. Benjamin Braddock pode não saber para onde está a ir, mas a sua jornada — incerta, caótica e profundamente humana — ainda deixa saudade nos nossos corações.

Mr. McGuire: Plastics.

Benjamin: Exactly how do you mean?

Mr. McGuire: There’s a great future in plastics. Think about it. Will you think about it?

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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