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Jogo: “Alan Wake” – É melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão

“Alan Wake” é uma das franquias mais populares do estúdio Remedy Entertainment, conhecido por nomes como “Max Payne“, “Quantum Break” ou “Control“. Lançado em 2010, “Alan Wake” procurava distanciar-se da aura de ação predominante nas obras anteriores do estúdio (“Max Payne” e “Max Payne 2“) para dar lugar a uma história mais sombria, abeirando-se ao thriller psicológico.

Na sua narrativa, Alan Wake é um aclamado escritor de policiais, famosos pelo carismático protagonista Alex Casey. Por estar em bloqueio criativo há dois anos, Alan e a sua esposa Alice decidem trocar a confusão de Nova Iorque pela pacatez da pequena cidade de Bright Falls durante algumas semanas. Depois de chegar à pequena vila, o casal instala-se numa cabana em Cauldron Lake, uma acanhada ilha no meio do grande lago da cidade.

Ainda durante a primeira noite, Alan descobre o verdadeiro propósito da viagem: Alice pretende que Alan consulte um renomeado psicólogo de Bright Falls, para que este o ajude a voltar a escrever. O protagonista, enfurecido ao descobrir a verdade, acaba por sair furioso da casa de férias. A fuga acaba por durar pouco, pois Alan regressa à cabana depois de ouvir gritos e percebe que Alice desapareceu, arrastada para as profundezas do lago por uma força misteriosa.

“Alan Wake” inicia-se quando o protagonista homónimo chega à pequena cidade de Bright Falls

Poucos segundos após saltar para o lago de forma a tentar resgatar a sua esposa, Alan Wake perde os sentidos e, quando recupera a consciência, encontra-se estranhamente dentro do seu carro, depois de ter tido um acidente. À medida que tenta chegar a um local seguro, depara-se com estranhas entidades cobertas de escuridão, às quais consegue fazer face usando a luz da sua lanterna.

Para espanto do protagonista, este vai encontrando páginas de um romance escrito pelo próprio intitulado “A Partida”, textos que não se lembra de ter criado. Mais insólito ainda, percebe que os eventos presentes nas páginas começam a tornar-se realidade e que as estranhas figuras com quem se cruzou anteriormente são os habitantes da cidade possuídos por uma Força das Trevas.

Já depois de alertar as autoridades, Alan Wake descobre que a cabana onde Alice desapareceu não existe e que a pequena ilha onde estava alojado se afundou numa erupção vulcânica várias décadas antes. Dado o estado mentalmente instável do protagonista, Alan é não só um narrador não confiável, como é também considerado uma pessoa perigosa pelas autoridades.

Um dos mistérios da história são as páginas do romance “A Partida”, que podem ser encontradas ao longo do jogo

Usando um estilo mais cinemático, “Alan Wake” está dividido em seis episódios, como se de uma série de televisão se tratasse. A jogabilidade vai buscar elementos de survival horror, sobretudo nas cenas noturnas, em que Alan Wake tem que fazer frente à Força das Trevas, força esta sobrenatural que pode controlar pessoas (os chamados Taken) ou até objetos.

O sistema de combate do jogo faz uso de três elementos principais. A lanterna permite danificar o escudo de escuridão dos inimigos, que apenas podem sofrer dano quando essa camada exterior é destruída. As armas de fogo, como revólveres ou shotguns, são usados de forma tradicional. Itens, como sinalizadores ou flashbangs, permitem lidar com vários inimigos em simultâneo.

Sobretudo pela inclusão da fonte de luz como elemento de combate, “Alan Wake” consegue apresentar mecânicas de combate diferentes do tradicional. É na conjugação saudável entre a lanterna e as armas de fogo que os combates podem ser ultrapassados, pois não é possível “abusar” de nenhuma das duas vertentes, seja pela escassa munição existente ou pela limitada bateria das lanternas.

Ainda que haja alguma novidade no sistema de combate, a grande insistência nesta vertente acaba por se tornar algo exagerada em algumas secções, sem ser compensada pela variedade de inimigos. O combate acaba por funcionar melhor como elemento de criação de tensão e suspense, do que propriamente uma forma de criar desafio, num jogo que quase sempre se propõe a ser mais uma aventura narrativa do que um teste de skill.

Os inimigos só podem ser eliminados depois de destruída a sua escuridão usando fontes de luz

Dissecar “Alan Wake” a um nível mais complexo é, acima de tudo, analisar a dicotomia do brilho e da escuridão. É à luz (trocadilho intencional) destes dois conceitos antagónicos que todos os componentes do jogo são influenciados e integrados de forma orgânica.

Para o protagonista Alan Wake, a escuridão sempre representou a principal ameaça na sua vida: em criança, quando não conseguia dormir no quarto escuro por medo aos monstros; em adulto, pois a sua mulher Alice é nictofóbica. É por isso natural que a principal força de antagonismo do jogo seja personificada com elementos de escuridão, sob a forma de humanos cobertos por uma camada sombria que aparece durante a noite.

A luz, contrariamente, tem uma significância metafórica de segurança e libertação, por ser o elemento que Alan sempre usou para manter a sua esposa segura, ganhando também uma acrescida importância durante os acontecimentos da história do jogo. O facto de os inimigos só poderem ser derrotados usando fontes luminosas, garante uma união estável entre aquilo que está a ser narrado e as ações que podem ser usadas pelo jogador para se expressar.

As páginas perdidas do romance “A Partida” permitem ter premonições sobre acontecimentos futuros

Um aspeto da jogabilidade que poderia ter tido maior destaque em prol do combate (sem que isso tirasse interesse ao jogo) é a exploração e descoberta de colecionáveis. A recolha das páginas perdidas do romance escrito por Alan Wake permite não só ter premonições sobre acontecimentos futuros, como também oferece momentos de introspeção sobre os motivos de outras personagens. Em certos momentos, programas de rádio ou de televisão também contribuem para a aura mística do jogo, dando dicas sobre a sabedoria popular da cidade de Bright Falls e dos seus habitantes.

Poderão faltar momentos memoráveis ao jogo, mas é inegável que manterá o jogador sempre na expectativa. Poderá ter um combate que hoje é considerado algo datado, mas é certo que o sentimento de estar sob constante ameaça está presente. Poderá não ter concretizado todo o seu potencial, mas é inegável o culto que conseguiu obter nos últimos anos: primeiro com o spin-offAlan Wake’s American Nightmare“, em 2012, seguindo-se “Alan Wake Remastered” (2021) e “Alan Wake 2“, em 2023, um dos maiores sucessos do ano. A franquia está bem e recomenda-se.

“Alan Wake” disponível em: Windows, Xbox 360

“Alan Wake Remastered” disponível em: Nintendo Switch, PS4, PS5, Windows, Xbox One, Xbox Series X|S

Luís Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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