As viagens do veterano realizador alemão Wim Wenders fazem-no regressar a território nipónico, mais concretamente ao Japão. País natal do seu ídolo, o realizador Yasujiro Ozu, a quem outrora dedicou o filme “Tokyo-Ga” (1985), que continua a ser uma grande fonte de inspiração. Assim podemos aferir pelo seu trabalho em “Perfect Days” (“Dias Perfeitos” em português), um drama meditativo que pede emprestado ao mestre japonês as singularidades do quotidiano, tão bem retratadas no seu cinema. Dentro das semelhanças dos discursos, talvez o aspeto mais evidente seja a rotina e a maneira como esta nos molda e descreve.
A primeira vez que nos encontramos com Hirayama (Kôji Yakusho) ele acabara de despertar do sono. Vemo-lo partir para os afazeres domésticos até sair porta fora, bem cedinho, para se fazer à estrada e começar o serviço: a limpeza das casas de banho públicas de Tóquio, ofício em que, por sinal, é bastante diligente. Após o seu turno, deambula e dedica-se a interesses culturais, entre os quais estão a fotografia, a leitura de romances e a música, como Perfect Day, de Lou Reed, de onde decorre o título.

Note-se que sempre que Hirayama sai de casa, olha para o céu e respira o ar puro. O gesto é pequeno, mas sempre enfatizado por Wenders, pois de certa forma revela a serenidade com que encara a vida. Sustentado pela repetição de um ciclo, aparenta dominar a arte da concentração, de estar presente, de não antecipar. Estado de consciência que lhe permite viver em plenitude, ainda que seja possível especular que nem sempre foi assim.
Como tem por hábito nos seus filmes de estrada, Wenders aponta com frequência a câmara para a cidade. Vemos as suas gentes, o tráfego dos automóveis e, como seria de esperar desta narrativa, muitas casas de banho públicas. Estruturas com finalidade conhecida, de arquitetura variada, vistosa e inusitada sofisticação. Neste paradoxo inscreve-se uma das observações mais interessantes de “Perfect Days”. Tal como não seria provável que as casas de banho públicas fossem objeto de admiração, também não é imediato que um contínuo tenha o gosto pelos escritos de William Faulkner. Afinal, cada pessoa é um mundo – haja a curiosidade para o explorar.
No epicentro deste engenho narrativo está uma interpretação subtil do ator Kôji Yakusho, que foi devidamente recompensada em Cannes com o Prémio de Melhor Ator na edição de 2023. Com diálogos reduzidos, Yakusho serve-se de expressões faciais e olhares empáticos para preencher os planos de propósito. A sua tranquilidade e sabedoria dispensam o melodrama e o sentimentalismo. São quanto basta, numa personagem que, apesar de misantropa, não recusa o contacto com estranhos. Chega, inclusive, a interagir com ternura.
A este propósito, recordo as cenas em que Hirayama participa no jogo do galo contra um oponente que desconhece. Dia após dia, quando volta àquela casa de banho, espera-lhe o seu turno de jogar. A curiosidade acumula com o rabisco de cada sinal. No entanto, pouco importa saber com quem se está a entreter. Antes que alguém reconheça a sua presença. Hirayama é notado, tal como, noutras cenas, ele repara num sem-abrigo desequilibrado. Estas personagens, que tanto no cinema como nas nossas vidas confundem-se com o cenário, são humanizadas através do seletivo ato de olhar.
Nessa medida, “Perfect Days” é também um filme sobre as complexidades da solidão e propõem-nos a presença, em oposição à distração, como antídoto. O seu protagonista age em contraciclo com a modernidade: tem apreço pelo analógico, segue uma conduta de valores à japonesa e vive o momento sem a ansiedade de saltar para o seguinte. Com quase 80 anos, Wim Wenders parece querer que nos aproximemos dos nossos dias perfeitos. E que bonito é vê-lo de volta ao grande cinema.
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