O processo de construção cinematográfico converte-se em obra de arte quando todos os elementos que a constituem se reúnem numa harmonia perfeita. Compreendi, que muito do que fascina no universo do cinema é o equilíbrio daquilo que é o “cinema nu” e a composição musical que o acompanha.
Passo a explicitar um exemplo dessa eufonia cinematográfica, Alexandre Desplat, nascido em França dos anos sessenta, o mestre da versatilidade, compositor de centenas de bandas sonoras (“A Forma da Água” (2017), “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 1 e Parte 2” (2010 e 2011, respetivamente), “Grand Budapest Hotel” (2014), “O Jogo da Imitação” (2014) ou o “O Discurso do Rei” (2010)) sendo que muitas nos vão continuar a conduzir a vida, com aquele toque de nostalgia e felicidade que apenas a ligação cena-instrumento consegue produzir em nós.
O que é mais admirável no trabalho de Desplat não é a criação musical na sua essência (apesar de ser um dos compositores mais talentosos a criar atualmente), mas sim a capacidade que este tem de recriar os filmes novamente, nunca deixando para atrás aquilo que a cena realmente quer transmitir. Desplat viaja até à medula de qualquer filme e aperfeiçoa-o, enverniza-o e torna-o brilhante numa nova perspetiva. As suas composições musicais são aquilo que a olho nu ouviria caso fosse essa a sua função. É fruto de uma mente estupenda conseguir metamorfosear os sentidos através da construção de uma pauta.
Iniciou a sua carreira em 1985 e ao longo de toda a sua obra trabalhou com diversos dos mais prestigiados realizadores da atualidade, contribuindo para filmes de Guillermo del Toro, Sarah Gavron e Greta Gerwig. Estando quase sempre presente nas películas de Wes Anderson, resultando desta junção trabalhos cinematográficos extraordinários e realmente interessantes.

É importante realçar esta “relação” Wes Anderson – Desplat. Em nota pessoal, muito nasceu a partir desta aliança, obras musicais verdadeiramente apaixonantes, sendo que muito do que foi pensando e criado por Wes Anderson, foi complementado com o estilo musical peculiar do compositor (um exemplo dessa harmonia é o filme “Grand Budapest Hotel”).
Certamente existem imensos outros grandes, enormes nomes que se podiam discutir, no entanto, Alexandre Desplat desde cedo conquistou uma parte especial na minha vida, e na forma como interpreto muito do que me chega. Gostava, com esta pequena reflexão, de transmitir de certa forma, o mundo que me chega através do artista, fazendo compreender um pouco mais de que muito do que vemos é, e será porque também ouvimos.
São mais de trinta e cinco anos de carreira, numa esplêndida colecção de filmes que são hoje mais completos e, sem dúvida, mais especiais na interpretação do espectador, graças ao trabalho inconfundível de Alexandre Desplat.