Plantar
“Ali naquele lugar
Eu vivia com mansidão
Tinha sonhos para sonhar.
Lá eu olhava o céu
Podia ver as estrelas
Sentir o sol debaixo do meu chapéu.
O sol brilhava queimando
A pele e os pensamentos
Lá eu trabalhava cantando.
Também ouvia o canto
Dos passarinhos e das cigarras
Ali era meu recanto.
A chuva caía de mansinho
Era hora de plantar
Depois seguir meu caminho.
Cavei o solo molhado
Para plantar bem fundo
Com lágrimas foi regado.
Com os pés descalços toquei o chão
Minha essência tem o cheiro da terra
Na roça plantei meu coração.“

Há quem procure a filosofia nas bibliotecas empoeiradas ou em teses académicas de linguagem complexa. Mas, para os leitores da Revista Conhece-te, a verdadeira sabedoria tem chegado, mensalmente, com a simplicidade e a frescura de um campo recém-chovido. O segredo? A escrita de Elvira Izabel, a poeta mineira que, desde o ano passado, se tornou um dos maiores presentes das páginas da conceituada revista brasileira.
Elvira Izabel traz na sua assinatura uma premissa rara nos dias de hoje: é uma poeta com os pés no chão. E essa ligação não é uma mera metáfora literária; é uma herança viva. O seu passado como lavradora corre-lhe nas veias e molda a precisão das suas palavras. Lavrar, plantar, colher, amar e lembrar são verbos que Elvira não se limita a conjugar no papel — são ações que viveu e que agora partilha connosco.
É essa vivência que empresta aos seus textos o aroma inconfundível da terra molhada pela chuva e o sabor autêntico dos frutos cultivados com paciência. Ao ler os seus poemas, torna-se quase impossível não recordar a visão de Martin Heidegger. O influente filósofo alemão do século XX admirava profundamente o sentimento de pertença dos trabalhadores da Floresta Negra. Para Heidegger, a lide diária com a terra não era um trabalho menor, mas sim uma forma prática e profunda de filosofar. Elvira faz exatamente o mesmo: transforma o quotidiano da terra em pura filosofia de vida.
Num mundo que teima em complicar tudo, a maior virtude de Elvira Izabel é a sua capacidade de ser simples. E desengane-se quem pensa que a simplicidade é um caminho fácil; em termos literários, é o mais difícil de alcançar. Com uma sabedoria natural, reminiscências ricas e um talento nato, a poeta mineira consegue transcrever sentimentos universais e paixões profundas sem qualquer artifício.
Todos os meses, na Conhece-te, Elvira Izabel recorda-nos de que a poesia não precisa de estar isolada numa torre de marfim. Ela pode — e deve — ter as mãos sujas de terra e o coração aberto ao mundo.
Para o deleite do leitor, mais um poema de Elvira.
Esperar
“Como a mãe espera o filho nascer
Os apaixonados esperam o encontro
A semente germinar e crescer
A vida é esperar.
A chuva parar de cair
O céu ficar azul de novo
O sol voltar a brilhar
A vida é esperar.
A dor parar de doer
A esperança renascer
A memória esquecer
A vida é esperar.
Esquecer o que foi um dia
Um lindo sonho de amor
Que não vai se realizar
A vida é esperar.
O sentimento mais lindo
Que um coração possa sentir
Mas é preciso soltar, deixar ir
A vida é esperar.
Enquanto os dias não passam
Parado neste lugar
Sem forças para seguir
A vida é esperar.
O peito cheio de vazio e dor
A espera daquele amor
De que nunca mais se ouviu falar
A vida é esperar.“
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