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Top 10: Melhores filmes de 2023

Mais um ano, mais uma série de constatações que nos conduzem a uma verdade inevitável: o cinema está em transformação. Em 2023 assistimos às reivindicações dos trabalhadores do audiovisual em Hollywood, com vários sindicatos a exigir melhores condições contratuais, bem como a limitação do uso de ferramentas de Inteligência Artificial nas produções – com impactos tangíveis no lançamento de vários filmes.

Este descontentamento acontece em paralelo com a contínua adaptação do cinema a novos modelos de distribuição, com as plataformas de streaming a exibir alguns filmes que haviam estreado em sala há escassos dias (“Maestro“, “O Assassino“, entre outros). Não houve alarido quanto aos resultados financeiros desta estratégia, portanto, resta-nos aguardar. Estou certo de que nunca me ouvirão a reclamar da oportunidade de continuar a assistir a certos filmes no seu lugar original.

Dito isto, a verdade é que assistimos a um setor cada vez mais plural nas suas vozes, narrativas e sensibilidades estéticas, consequência das convulsões socioeconómicas da última década. Neste quadro de mudança, dou a minha sentença quanto aos filmes que mais se destacaram em 2023, regendo-me pelo calendário de estreias em Portugal. Se assim não fosse, era certo que alguns filmes escapavam pelos pingos da distribuição.

Começo com três menções honrosas que, de alguma forma, refletem a tensão fulgurante que existe entre o classicismo e a modernidade no cinema contemporâneo. “As Oito Montanhas“, da dupla de realizadores Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch, “May December: Segredos de Um Escândalo“, de Todd Haynes e “Beau Tem Medo“, de Ari Aster. Filmes com texturas muito próprias que à sua maneira proporcionaram sessões plenas de intriga e um certo grau de desafio.

“Oito Montanhas”

Inauguro o elenco com uma estreia tardia. O regresso à ribalta do cineasta alemão Wim Wenders, que com “Dias Perfeitos” faz o seu elogio à rotina e recorda-nos da importância de estar presente. Assunto capital nesta era de distração em que vivemos. Curiosamente, é também com aguçado sentido de observação que caracterizo a minha nona escolha, “A Noite do Dia 12“. Fantástico drama policial de Dominik Moll sobre um crime que penetra no coração daquilo que está errado entre os homens e as mulheres, sem respostas fáceis.

A este propósito, Sarah Polley não se absteve de dar os seus dois cêntimos. E que bem que o fez. Mais concretamente, com “A Voz Das Mulheres“, a construção de um diálogo socrático contra o patriarcado que arrebatou o Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

Já no sétimo lugar temos, de igual modo, cinema dos nossos tempos. Oriundo da Roménia, o cineasta Cristian Mungiu faz uma análise assustadora ao seu país com o thrillerR.M.N.“, baseado nas complexidades da xenofobia e nos efeitos da globalização. Os resultados revelam uma sociedade de contradições que se autoflagela com receios e inseguranças. Do nacional partimos para o pessoal com “A Baleia“, o melodrama de Darren Aronofsky que garantiu o Óscar de Melhor Ator a um Brendan Fraser adiposo. Lembro-me como se fosse ontem da poça de lágrimas que deixei na sala de cinema.

Tal como recordo com entusiasmo a experiência exuberante de assistir a “Babylon“, o filme de época maximalista de Damien Chazelle que, para o bem ou para o mal, não deixou ninguém indiferente. É Chazelle na sua versão mais indomável, depois de encenar a genuína jornada de “O Primeiro Homem na Lua” (2018).

“Babylon”

Num ano de muita música, foi sob a batuta de Lydia Tár que mais me senti arrepiado. Assinado por Todd Field, um kubrickiano de gema, “Tár” disseca os delírios de poder de uma maestrina assolada pelos fantasmas do passado, num ambiente rígido e de traços retilíneos. Quer pela disciplina visual como pela maneira com que aborda os seus temas, suspeito que continuará a ser estudado enquanto clássico moderno.

E com esta nota laudatória parto para o terceiro lugar, no qual se senta um filme de hostilidade desconcertante: “As Bestas“, do madrileno Rodrigo Sorogoyen. Enredo de elevada densidade dramática que se centra numa disputa de vontades em território rural. Encontrei aqui toda a tensão que não senti na esmagadora maioria das produções de horror deste ano.

Afasto-me do grotesco para ceder aos delicados palpitares de “O Azul do Cafetã“. Um retrato poético da autora Maryam Touzani sobre um triângulo amoroso no seio de uma sociedade reprimida. Marrocos entrega-nos, assim, um filme de rara profundidade afetiva. Contudo, é na tempestuosa Irlanda dos anos 20 que se situa a ação do melhor filme do ano, “Os Espíritos de Inisherin“, de Martin McDonagh. A investigação existencialista da desavença entre dois companheiros de longa data que começa com rasgos humorísticos e termina sem razões para sorrir – exceto, claro, a certeza de que o cinema está bom e recomenda-se.

“Os Espíritos de Inisherin”

1.º “Os Espíritos de Inisherin”

2.º “O Azul do Cafetã”

3.º “As Bestas”

4.º Tár”

5.º “Babylon”

6.º “A Baleia”

7.º “R.M.N.”

8.º “A Voz das Mulheres”

9.º “A Noite do Dia 12”

10.º “Dias Perfeitos”


MH1 “Beau Tem Medo”

MH2 “May December: Segredos de Um Escândalo”

MH3 “As Oito Montanhas”

Bernardo Freire

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