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Porque A Arte Somos Nós

Se há coisa que o cinema deve explorar são os sentimentos humanos. Aliás, não só humanos, mas de toda a espécie. Este filme, “Um Amigo Extraordinário” (2019), exprime não só uma verdade acima de todas as outras, mas também a questão de sermos capazes de ver para além do óbvio, do que nos é sensitivo e imediato, e termos a capacidade para perdoar os outros – e a nós mesmos.

A amizade é a palavra de ordem desta biopic que se descentra da personagem em causa, Fred Rogers (Tom Hanks), apresentador de um programa infantil de imenso sucesso, e torna-se num ensaio sobre a nossa identidade. Calmo, sereno, musical (poético) e filosófico, é-nos dada a oportunidade de fazer uma viagem cinematográfica fascinante pela interioridade dos intervenientes. O clímax intelectual está na amizade verídica entre Fred Rogers e o cronista Lloyd Vogel (Matthew Rhys).

Muito bem dirigido por Marielle Heller, conhecida pelo mais recente sucesso “Can You Ever Forgive Me?” (2018), mostra uma sensibilidade extremamente enriquecedora e a sua capacidade para contar histórias memoráveis de forma pessoal e diferenciadora, mesmo tendo sido esta escrita por Micah Fitzerman-BlueNoah Harpster.

A amizade que vemos florescer entre o estável apresentador e o destroçado (pelo passado) escritor não só mostra como é possível desenvolver algo bonito e mútuo na adversidade, como também mostra a influência que a persistência para ajudar alguém a sair do abismo de si mesmo pode ser, verdadeiramente, determinante. Este filme eleva um drama muito consistente do início ao fim, que é simples, audaz, coeso e assertivo.

É estranho, mas, por vezes, o mais difícil é perdoar alguém de quem gostamos“: um desabafo de Fred Rogers, que se auto-disciplinava para tentar ver sempre o lado bom das coisas e moderar temperamentos. É necessário olhar para trás e avaliar o potencial de questões não/mal resolvidas para limpar a consciência e, por vezes, voltar a viver. É o que acontece a Lloyd Vogel.

Acho que ninguém pode crescer a menos que seja aceite tal como é“… A questão da autenticidade e identidade é talvez a mais maleável ao longo da narrativa e quase que transpõe o espectador para o próprio enredo, como se aquilo que vemos fosse um espelho sucessivo e progressivamente lúcido de nós mesmos.

Um filme bastante completo, que merece ser desfrutado, saboreado aos poucos… como toda a arte, mais ou menos evidente, merece ser aplaudida de pé, em coro, pelo coração.

Tiago Ferreira

Rating: 4 out of 4.

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One thought on ““A Beautiful Day In The Neighborhood”: A sublimidade de se ser humano

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