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Porque A Arte Somos Nós

The Master – O Mentor” é um filme desconcertante que nos conta a história de um veterano da Marinha norte-americana, na década de 1950, que enfrenta um futuro incerto e problemas psicológicos auferidos pela Segunda Guerra Mundial, mais especificamente pelas batalhas contra os japoneses e pela imensidão de horas passadas em alto mar. Realizada por Paul Thomas Anderson, a obra espelha por completo o talento de Joaquin Phoenix (Freddie Quell), que tem uma transformação e entrega fantásticas – só ao alcance dos melhores. A partir deste papel percebemos o porquê de “Joker” (2019) ter sido um sucesso megalómano (mais de um bilião de bilhetes vendidos)… “The Master – O Mentor” mostra-nos um homem perturbado com o mundo, solitário e com uma carência extrema. Carência essa que é parcialmente abatida com a entrada em cena da “Causa”, um culto liderado por Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) que defende a cura de doenças e problemas através de um transe, no qual somos dominados por outras pessoas do passado ou do futuro inerentes a nós.

O teste cognitivo feito a Freddie Quell antes deste “voltar” à sociedade mostra-nos um homem com distúrbios e perturbações sexuais, tal como observamos minutos antes na praia onde este simula cenas sexuais com uma boneca feita na areia, para logo de seguida se masturbar. Este tem como “primeira profissão” o trabalho de fotógrafo numa galeria comercial, uma experiência que ao início parecia estar a correr bem, mas que mais tarde ou mais cedo acabaria por trazer problemas a Quell devido às suas reacções impulsivas e violentas. Até ao seu primeiro encontro com Lancaster Dodd, Freddie ainda passou por um cultivo de alfaces, onde foi acusado de envenenar um colega de trabalho. Mas então porquê? A verdade é que os anos no mar trouxeram permitiram a Freddie criar uma espécie de poção alcoólica muito forte, que ingerida em grandes quantidades poderia levar à perda dos sentidos, ou até mesmo à morte. O seu colega simplesmente bebeu, bebeu, e bebeu…

Ao fugir dos seus problemas, o veterano de guerra norte-americano refugia-se no barco de Lancaster Dodd, que o acolhe quase como que um filho. O capitão do barco (Lancaster) rapidamente se apresenta como sendo um homem multifacetado, que vai desde médico a filósofo, e logo tenta descortinar Freddie com os seus testes de respostas rápidas. Quell é apresentado à família de Dodd, assistindo de perto ao casamento da sua filha Elizabeth (Ambyr Childers) com Clark (Rami Malek), e na chegada a Nova Iorque ficou bem patente o papel de cobaia que este iria desempenhar dentro da seita, “A Causa”.

A narrativa é pautada por provocações, violência, sexualidade, e muitos jogos psicológicos. Mexer com uma mente doente nunca costuma dar bom resultado, mas a forte convicção de Lancaster Dodd, muito em parte devido ao seu endeusamento, queria curar Freddie Quell. Quando questionado se servia algum tipo de mestre, Quell respondeu prontamente que “não”. Contudo, durante a história observamos que Freddie tem a necessidade de seguir alguém, de um mentor.

Outra importante característica deste filme é a sua componente física, que é especialmente bem retratada no episódio da prisão de Quell e Lancaster, onde o primeiro destrói quase por completo a cela com pontapés e cabeçadas. Uma prova de entrega total por parte de Phoenix. A caracterização dos personagens é muito bem executada, apesar de que em certas alturas não sentimos verdadeiramente a vibe da década de 1950. Com isto, percebemos que ficaram algumas pontas soltas no “retorno” ao passado, tendo em conta a elevada prestação por parte dos atores.

O filme é inteiramente preenchido pela prestação de Joaquin Phoenix. O seu andar, a sua forma de falar, o seu olhar, os seus impulsos, o seu riso. O seu desencontro com a sociedade. Freddie Quell é um papel que não imaginamos praticamente mais nenhum ator ser capaz de replicar com esta fidelidade. Importante a química que este cria com o já falecido Philip Seymour Hoffman (1967–2014), que serve como uma espécie de luz que ilumina o caminho conturbado desta narrativa. Importante também mencionar Amy Adams (Peggy Dodd), a mulher de Lancaster que serve de âncora do mesmo, uma espécie de Mentora do próprio Mentor. Entende-se que a visão estratégica da “Causa” é maioritariamente delineada por Peggy – uma céptica quanto à integração de Freddie no seio de toda a acção.

Esta é uma obra obrigatória da última década, tal como já foi mencionado aqui no site. O filme é filmado a 65mm – o primeiro desde “Hamlet” ( Kenneth Branagh, 1996). Este serve como cartão de visita obrigatório para quem queira conhecer melhor o trabalho de Paul Thomas Anderson, com uma história emocionante que nos deixa a adivinhar até ao final, qual o real objectivo o argumento.

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

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