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Porque A Arte Somos Nós

Após ter sido feita a crítica ao álbum “Lou Reed Live”, decidi complementar esta com a sua cara metade, “Rock ‘n’ Roll Animal”. Este último também é um ao vivo, com a particularidade de conter as músicas que ‘faltam’ a “Lou Reed Live”, portanto o resto do concerto na Academy of Music, Nova Iorque, em 1973.

Esta obra foi editada em 1974, um ano antes do seu ‘irmão’, e contém cinco músicas, quatro das quais dos Velvet Underground: Sweet Jane, Heroin, White Light/White Heat, e Rock ‘N’ Roll. Do seu último álbum há altura, “Berlin”, temos Lady Day. Este terceiro trabalho de estúdio de Lou Reed, estávamos nós em 1973, é uma obra conceptual que conta a história de um casal com graves problemas de toxicodependência, tendo sido já considerado pela Rolling Stone como um dos 500 Melhores Álbuns de Sempre. Este aborda temas como, para além da droga, a prostituição, a depressão, violência doméstica, e suicídio. Todos estes temas acabam por espelhar de certa forma o estilo de vida do músico norte-americano, uma pessoa frágil e sempre ligada a ambientes alternativos.

No que toca a “Rock ‘N’ Roll Animal”, temos então de novo uma parte importantíssima da receita de sucesso desta tour, os guitarristas Steve Hunter e Dick Wagner. Estes trazem uma clarividência diferente às músicas dos Velvet Underground, que nas suas respectivas versões de estúdio, têm uma melodia ‘menos intensa’. Contudo, o título deste trabalho faz jus à música que nele é tocada. Segundo Paul Nelson, jornalista da revista Rolling Stone, que esteve presente neste concerto, apelida a atuação do cantor norte-americano de “violenta” e “hipnótica“, dando particular destaque à banda que o acompanha, chegando mesmo a afirmar que “bastava Reed ser competente para o concerto ser um sucesso“.

A primeira faixa é Sweet Jane, o único single do álbum, e tem direito a uma Intro mais prolongada, muito por culpa dos dois guitarristas, demonstrando desde já aos fãs da ex-banda de Lou Reed, que esta seria uma versão bem mais rock & roll comparativamente à original. Esta sempre acompanhou Reed ao longo da sua carreira, estando presente em vários trabalhos ao vivo do artista. Originalmente, pertence ao álbum “Loaded” (1970), dos Velvet Underground. A voz do cantor natural de Nova Iorque apresenta-se irrepreensível, liderando a condução crua e energética dos seus músicos. Somos logo de seguida confrontados com um dos maiores clássicos dos Velvet, Heroin. Esta é uma música escrita por Lou Reed, e tal como o nome indica, fala abertamente acerca do uso dessa mesma droga. O crítico Mark Deming, da Allmusic, uma base de dados de música online, afirma que “da mesma forma que ‘Heroin’ não incentiva o uso da droga, também não a condena, o que torna as coisas mais problemáticas aos olhos de muitos ouvintes“. Segundo Lou Reed, este escreveu a letra fechado num quarto, enquanto trabalhava como escritor para uma empresa discográfica, quando na verdade lhe tinham pedido 10 músicas para surfistas. Do clássico “The Velvet Underground & Nico” (1967), produzido por Andy Warhol, Heroin aparece em “Rock ‘N’ Roll Animal” mais viciante do que nunca. As partes lentas são contrastadas com um gradual aumento de velocidade que acaba por atingir o clímax mais vezes do que possamos imaginar. É como pegar na versão original, manter a sua mística, mas nas alturas que é preciso elevar o seu patamar, vamos até ao extremo da intensidade, transformando-se numa incrível trip – com muitos riffs de blues pelo meio. O que querem mais? Sem dúvida, estes 13 minutos são destaque deste álbum.

Passamos assim para a segunda metade da obra, a abrir com mais um tema dos Velvet, White Light/White Heat. Do álbum com o mesmo nome (1969), esta é uma canção que já foi tocada por bandas como os Metallica, ou por artistas como David Bowie – amigo de Lou Reed. Esta é uma versão crua, com alguns indícios de punk, de uma música que fala sobre o consumo de anfetaminas por via intravenosa, provocando um elevado estado de euforia. Esta descrição vai ao encontro desta performance, com partes de slide guitar a complementar o riffs energéticos, desta que é a segunda música mais curta do álbum (5:15). Lady Day, de “Berlin” (1973), vem carimbar de novo a genialidade de Steve Hunter e Dick Wagner, com riffs intensos e obscuros, este é um tema que aborda a prostituição e que nos transporta para o sub-mundo alternativo que se vivia em Berlin – uma cidade à altura dividida por um murro (República Federal da Alemanha e República Democrática Alemã). Todo de preto, Lou Reed fecha este álbum com Rock ‘N’ Roll, outra música dos Velvet Underground. Esta pertence a “Loaded” (1970) e aqui [“Rock ‘N’ Roll Animal] podemos encontrar uma versão bem mais extensa do tema. Sendo o encore do concerto original, a banda delicia o seu público ao introduzir uma secção com algum groove, que culmina numa explosão de energia. Mais uma vez, a banda de Reed demonstra o porquê deste espectáculo ser um dos melhores da sua carreira. Destaque para o baixista Prakash John, que inicia o fim frenético do álbum, passando depois a bola aos dois principais protagonistas deste concerto: sim, de novo Steve Hunter e Dick Wagner.

Não é difícil de perceber que seria um grande favor para todos os que gostam de boa música e de Lou Reed, que o concerto fosse lançado na íntegra. Temos quase isso, e ainda bem. Respeitando a cronologia, “Lou Reed Live” é o complemento perfeito para este “Rock ‘N’ Roll Animal”, de maneiras que são dois trabalhos obrigatórios para quem aprecia álbuns ao vivo. A entrega de Lou Reed e da sua banda é fenomenal, deixando já água na boca aos futuros fãs do punk rock. É o músico no seu auge, a pegar nas músicas da sua antiga banda e tocá-las ainda melhor (o que é difícil). São aproximadamente 40 minutos de puro prazer.

Música obrigatória: Heroin

⭐⭐⭐⭐

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