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Porque A Arte Somos Nós

São 18:00 e a fila já é longa. As portas abrem às 19:30 mas muitos são os que querem marcar presença na ‘frente de combate’ em mais uma das inúmeras investidas de Bryan Adams por terras lusas. Desta vez é em Braga, no Altice Forum, que irá estar a rebentar pelas costuras. O seu público é variado, sendo notório a influência musical dos mais velhos nas novas gerações, pois quem ache que o cantor canadiano já passou à história, está bastante equivocado.

Já no recinto, somos deparados com um palco simples (tirando o enorme ecrã por detrás dos instrumentos) fazendo lembrar aquele passado onde os artistas apenas precisavam da guitarra, da bateria, do baixo, dos microfones e pouco mais. Eram tempos mais exigentes a nível de performance, onde se esperava sempre obter momentos inesquecíveis ao som de músicas que nos fazem viajar, sem recorrer a LEDs e a um público obcecado em gravar pelo menos metade do concerto no telemóvel. Para fazer esquecer isso, a espera pelo início do concerto foi feita ao som de bandas e como Thin Lizzy, Stevie Ray Vaughan, The Temptations, Jimi Hendrix ou Bob Dylan.

Bryan Adams chega a Braga em suporte do seu último álbum “Shine A Light”, editado a 1 de março deste ano, com a missão de também reviver o seu passado por Portugal, onde viveu e estudou de 1966 a 1970. O músico de Summer of ’69 – canção inspirada nessa mesma etapa da sua vida – tardava a chegar, e muitos eram os que procuravam puxar o artista para o palco através das palmas. Foram necessários 20 minutos para convencer o canadiano a aparecer, mas sem dúvida que depois de aproximadamente duas horas, ficou uma vez mais provado que Bryan Adams é um artista mais rock que pop. Este mostrou-se um gentlemen quando foi preciso a intervenção dos bombeiros a meio do espectáculo, feliz cada vez que interagia com o público, e moderno quando tirou selfies e fez gravações live do concerto.

Mas vamos ao que realmente interessa. O concerto começa com The Last Night On Earth, tema do seu último álbum, ao qual se seguiu Tonight, um dos seus primeiros êxitos, do seu segundo álbum “You Want It You Got It” (1981). Este último serviu para desbloquear qualquer tipo de entrave que pudesse existir, pois de seguida veio Can’t Stop This Thing We Started, uma música mais energética que pôs toda a gente a cantar o seu refrão, algo não muito difícil nas músicas de Bryan Adams. Contudo, esta dose de adrenalina não acabava aqui, Run To You do seu aclamado “Reckless” (1984) chegava para pôr muita gente a saltar e a gritar. De novo do trabalho mais recente, o seu homónimo Shine A Light iluminou o pavilhão a um ritmo fresco e fácil de cantar, uma música que apela mais aos sentimentos e que serviu de entrada para outro grande clássico, Heaven. Aqui, Bryan Adams alternou entre uma versão acústica e full band, sendo que por esta altura a temperatura no recinto era já bem elevada, pois poucos eram os que se aguentavam com os seus casacos de inverno postos.

O espectáculo continua com Go Down Rockin’, mas o destaque vai para a canção seguinte It’s Only Love, um tema que conta com Tina Turner na versão original e que o canadiano fez questão de brincar com o público fazendo-o acreditar por segundos que a cantora de The Best estava em Braga. Aqui a banda aproveita para prolongar a canção, com um excelente improviso por parte do guitarrista Keith Scott – que acompanha Bryan Adams desde o início dos anos 80. Após este festim de guitarra eléctrica temos Cloud #9, uma canção mais pop que se fartou de passar nas rádios portuguesas desde 1998. You Belong To Me completa uma fase mais mexida, para de seguida a guitarra acústica ser uma das principais protagonistas da noite. Have You Ever Really Loved A Woman? trouxe ao grande ecrã imagens de “Don Juan DeMarco” (1994), do qual a música faz parte, e foi um excelente pretexto para os homens dançarem bem junto das suas esposas e namoradas, não esquecendo a excelente prestação vocal de Adams. Here I Am, When You’re Gone e Thought I’d Died and Gone to Heaven são apresentadas pelo australiano a solo, tendo o público aqui um papel mais participativo e intimista com o artista. A banda voltaria a entrar em acção a meio de mais um clássico que fez levantar centenas de telemóveis, (Everthing I Do) I Do It for You, uma canção imprescindível na carreira de Bryan Adams. Seguem-se Back To You, The Only Thing That Looks Good on Me Is You, Cuts Like A Knife e 18 til I Die, com especial atenção para a primeira, com uma energia notável e uma das melhores versões desta canção que alguma vez ouvi.

Chegamos à altura das músicas pedidas. As escolhidas foram Lonely Nights, pelo Miguel, One Night Love Affair, pela Cristina, There Will Never Be Another Night, pela Verónica, e Please Forgive Me, pela Ana Sofia. Das canções, destaque para Lonely Nights e One Night Love Affair, as duas primeiras músicas dos álbuns “You Want It You Got It” e “Reckless”, respectivamente, que acabaram por cair do céu de forma bastante ruidosa, mas no bom sentido. No entretanto, o concerto esteve suspenso durante aproximadamente 10 minutos devido a uma intervenção dos bombeiros em auxílio a um espectador, ao qual Bryan Adams pediu calma e tranquilidade a todo o público – Respect! As pessoas começavam a perceber que o concerto entrara na recta final, e tal foi confirmado com o clássico dos clássicos: Summer of ’69. Aqui foi como que um libertar de energia acumulada há anos, com toda a gente a acompanhar o cantor canadiano do início ao fim da canção. Era fechar o concerto com chave de ouro, com Bryan Adams e a sua banda a abandonar o palco para o encore final.

Este começaria de novo em grande, com Somebody a levar as pessoas a gastar os seus últimos cartuchos. Seguiu-se o momento de dançar rock and roll ao som de I Fought the Law, dos The Crickets, para de seguida Bryan Adams falar do seu passado em Portugal, complementando com imagens da sua escola, da professora, de si próprio com 8/9 anos, até às suas filhas na praia nos dias de hoje. Após esta declaração de amor ao nosso país, seguiu-se Straight From the Heart, realmente vinda do coração e cantada a meias com o público. All for Love, Remember e Into the Fire fecharam um concerto memorável, do qual Bryan Adams se despediu com “beijinho“.

Não consigo imaginar o Bryan Adams velho, pois apesar dos seus 60 anos, este concerto foi só mais uma prova da sua energia e frescura em palco. O seu português é bastante bom, mas nota-se que há algo muito mais especial que o une a Portugal para além do seu passado. O futuro é o caminho e o canadiano continua a não desistir de dar algo novo aos seus fãs, apesar de ter ficado bem patente que os seus êxitos de outros tempos são a grande âncora dos seus espectáculos. Consistente e capaz de pôr toda a gente a vibrar e a cantar, Bryan Adams tem ainda muito para dar à música e garante algo muito importante nos dias de hoje: um grande show!

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