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Porque A Arte Somos Nós

O décimo álbum de originais da banda britânica, lançado em 1977, levou-nos à “Quinta dos Animais” – sim, essa mesmo que George Orwell publicou em 1945, ano marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Os Pink Floyd entravam assim num contexto mais político e menos sentimental, com Roger Waters no comando das tropas. Todas as cinco faixas de “Animals” foram escritas pelo baixista, com a excepção de Dogs que conta com o contributo de David Gilmour. A obra é sucessora de “Wish You Were Here” (1975), uma ressaca comercial pós “Dark Side Of The Moon” que deu à luz temas como Wish You Were Here e Shine On You Crazy Diamond – esta última dedicada ao antigo membro fundador da banda, Syd Barrett, que alegadamente apareceu de forma irreconhecível no estúdio aquando da gravação do álbum. Os britânicos passavam assim a ter um papel mais interventivo e a tocar na ferida de forma directa e melódica, pois o resultado final é um dos melhores da carreira de Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright.

O álbum abre com Pigs On The Wing (Part 1), um tema com Roger Waters na voz e com uma guitarra acústica que nos faz lembrar Mother (música que estaria presente no álbum de 1979, “The Wall”). Esta é um pequeno aperitivo para o se segue. O primeiro animal a ser mencionado é o porco, o que mais se assemelha ao Homem dos três mencionados neste álbum, e para quem as críticas são mais audíveis. Não nos podemos esquecer que “Animals” é um álbum conceptual sócio-político, tal como a obra de Orwell, que faz a analogia dos animais à sociedade decadente que nos coloca a um nível irracional.

Dogs, com aproximadamente 17 minutos de duração, é uma música já antes testada ao vivo sobre o nome de You’ve Got To Be Crazy, desde 1974. Este é um dos trabalhos mais estonteantes de David Gilmour enquanto guitarrista dos Pink Floyd. O músico que se juntou à banda em 1968 é capaz de transmitir um sentimento de dor e revolta através da sua guitarra, que inclui um dos melhores solos em toda a discografia do grupo. Mérito também para o teclista Richard Wright, que a meio da música cria uma espécie de ponte psicadélica entre o corpo da canção – uma característica dos Pink Floyd desde 1967. Dogs fala-nos da violência e ganância dos homens de negócio na sociedade capitalista, na sua frieza perante o outro, tratado como um mero cão. Um cão nascido para crescer, obedecer, e morrer. “Who was trained not to spit in the fan” – perda de individualidade; “Who was fitted with collar and chain” – obediência; ou “Who was only a stranger at home” – o trabalho acima da família.

Seguimos com Pigs (Three Different Ones), o animal que Roger Waters põe no topo da hierarquia da quinta, pois são os que detêm o poder e a riqueza. No contexto da obra o porco é manipulador, ganancioso e malicioso. Avançando mais no tempo, pois não consigo não partilhar a experiência que tive em ouvir ao vivo esta música – Roger Waters na “Us + Them Tour” em 2018 na Altice Arena, Lisboa. Um tema que à actualidade se aplicou a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América, devido às suas políticas anti-imigraçã. Inúmeras imagens do mesmo passaram no ecrã gigante enquanto Waters cantava de forma praticamente igual a 1977 as ‘bocas’ e as duras críticas a todo um sistema político corrompido. Enquanto isso, um porco gigante sobrevoava a arena. Muitas fotografias foram tiradas, mas a música falou sempre mais alto, pois esta é daquelas canções em que a mensagem será sempre contemporânea. Quanto à música em si, é Pink Floyd no seu melhor, pois fica de novo demonstrado que músicas com mais de 10 minutos podem ser interessantes e estimulantes, principalmente com músicos deste calibre. Destaque para o solo de David Gilmour, que com a ajuda da talk box oferece um efeito de fala psicadélica à guitarra.

Sheep, primeiramente apelidada de Raving And Drooling, é uma espécie de jam que evolui num crescendo até a um riff de guitarra simples mas inconfundível. As ovelhas são a força da mudança, e isso é bastante claro no fim da música: Have you heard the news? / The dogs are dead! / You better stay home / And do as you’re told / Get out of the road if you want to grow old … E foi isso mesmo que banda fez, mudou e nunca deixou a sua marca para trás, como depois seria confirmado com “The Wall”, em 1979. Pigs On The Wing (Part 2) é uma espécie de pequena continuação da primeira música, com Roger Waters de novo a solo. Uma moldura que transparecia a realidade dos Pink Floyd, uma ovelha que cada vez mais se afastava do seu rebanho.

“Animals” é uma experiência de aproximadamente 40 minutos que nenhum fã de Pink Floyd pode deixar passar ao lado. Marca um momento de transição da banda, que mesmo não sendo um dos álbuns mais conhecidos (apesar da sua icónica capa do porco a voar sobre a Battersea Power Station), é um dos mais bem conseguidos, quer seja a nível conceptual ou instrumental.

Música obrigatória: Dogs

Rating: 3.5 out of 4.

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