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Porque A Arte Somos Nós

1.º “For Your Pleasure”, Roxy Music (1973)

O segundo álbum da banda britânica Roxy Music, composta na altura por Bryan Ferry, Brian Eno, Phil Manzanera, Andy Mackay e Paul Thompson, é um marco no avant-garde musical dos anos 70, sendo que ainda hoje podemos ouvir esta obra e ficar surpreendidos com a sua profundidade e densidade artística.

A primeira faixa, Do The Strand, o único single do álbum, revela uma banda disposta a ensinar o que viria a ser a base do punk rock, com ritmos ora acelarados, ora com breves abrandamentos que Bryan Ferry usa para falar de “tango” e “fandango”. Beauty Queen é um tema charmoso, que aborda a obsessão de Ferry por uma mulher (talvez a da capa?) de forma suave, com a banda a servir de apoio a um dialecto poético. Strictly Confidential faz jus ao título, com um instrumental psicadélico onde se destacam os pianos eléctricos e a guitarra de Manzanera. Esta ouçam num ambiente calmo. Editions Of You traz de volta o lado mais pop rock do álbum, na qual se destaca o saxofone de Andy Mackay e o sintetizador VCS3 de Eno, apesar de percebermos que é uma canção onde toda a banda tem o seu espaço para se destacar.

In Every Dream Home A Heartache, um tema mórbido, que nos faz questionar ‘como é que isto veio aqui parar?’. Os dois primeiros terços da música é apenas Bryan Ferry, num tom de narração, acompanhado por um órgão melancólico que nos faz sentir a morte do outro lado. O outro terço é a explosão da banda para um fim psicadélico com muitos overdubs – um must! The Bogus Man, a música mais longa do álbum (cerca de nove minutos e meio), põe-nos a pensar num homem misterioso que nunca ninguém viu a cara, mas que anda pelas ruas da cidade ao som de um ritmo sedutor e cheio de notas experimentais. Grey Lagoons é a música mais ‘alegre’ do álbum, deixando-nos mais relaxados para a ponta final do álbum – mas atenção, é um rock and roll refinado. Para terminar, For Your Pleasure, que avança para o fim como que se uma chama se estivesse a apagar, com muito eco, pois este seria a última participação de Brian Eno num álbum dos Roxy Music.

Esta é uma obra obrigatória a toda a gente que gosta de música sofisticada, pois tal como a sua capa vinyl, este disco acrescenta uma nova dimensão ao que pode ser a música, sem nunca perder de vista os high standards destes músicos enigmáticos.

2.º “Sheer Heart Attack”, Queen (1974)

Este é o terceiro trabalho da banda de Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor, e John Deacon. Após estarem juntos nesta formação há três anos, a banda decidiu dar continuidade à sua sonoridade particular, com muitas pistas de backing vocals, mas com a particularidade da componente instrumental ser mais crua. A obra chega após uma digressão com os Mott The Hoople, que só durou metade do tempo devido ao adoecimento do guitarrista dos Queen.

O álbum abre com Brighton Rock, uma ode ao skill de guitarra de Brian May. A música obriga-nos a carregar no acelarador com o falsete de Mercury acompanhado de uma parede musical. Esta evolui para um solo de guitarra que ocupa metade da faixa – este é uma composição inspirada na música Blag dos Smile, a antiga banda de Taylor e May, para além da improvisação feita ao vivo no tema Son And Daughter, do primeiro álbum (“Queen”, 1973). A seguir chega-nos o famoso Killer Queen, um dos singles do álbum. Este foi o primeiro grande êxito do grupo (tiramos Seven Seas Of Rhye da corrida). Escrita por Freddie numa só noite, a letra fala-nos de uma prostituta glamorosa e espelha o que seria a relação de Mercury com a música, com muito estilo e com tudo do melhor. Esta composição permitiu atuar no Top Of The Pops, em 1974, tornando-se uma das aparições mais mediáticas em televisão da banda. Continuando a audição, segue-se Tenement Funster, uma canção composta e cantada por Roger Taylor sobre rebeldia, que demonstra um grupo decidido a mostrar o seu lado mais heavy. Segue-se, numa espécie de medley, Flick Of The Wrist. O destaque vai para a parte vocal de Mercury, que canta de forma vigorosa uma história de sedução e violência entre uma homem e uma mulher, com muitas backing vocals à mistura. O final deste medley parcial dá-se com Lily Of The Valley, escrita por Mercury, e é uma peça simples com o cantor acompanhado pelo piano a entrar no mundo de Neptuno. A primeira parte do álbum termina com Now I’m Here, uma composição de May que iria acompanhar a setlist dos Queen até ao último concerto, em 1986. É o segundo single da banda e com o passar dos anos foi sempre crescendo em tamanho e improvisação nos espetáculos ao vivo. Um dos pontos altos do álbum.

A segunda parte da obra inicia-se de forma estridente com os agudos (registo normal!) de Roger Taylor e com vários overdubs por parte deste último e de Freddie. In The Lap Of The Gods, tal como o título indica, consegue levar-nos para o meio dos deuses em todos os seus arranjos, mas temos de ter noção que independentemente disso, a música seguinte merece um maior destaque. Stone Cold Crazy revela a faceta mais punk dos Queen em praticamente toda a sua carreira. Uma das primeiras músicas escritas pelos quatro membros da banda, sofreu várias modificações até à sua gravação em 1974. A canção ganhou ainda mais importância graças à cover feita pelos Metallica, quer em estúdio, quer em concertos. Seguem-se Dear Friends e Misfire, duas faixas com menos de dois minutos, sendo que a segunda é a primeira composição original do baixista John Deacon a constar num trabalho da banda. Agradáveis, oferecem um tom mais inocente da banda pela sua simplicidade. Bring Back That Leroy Brown os dois minutos mais divertidos do álbum. Um trabalho peculiar, com uma dupla linha de baixo, um piano que nos faz lembrar bailes em saloons às tantas da noite, e a cereja no topo do bolo: um ukelele. Este último era utilizado nas actuações ao vivo desta música. Segue-se She Makes Me (Stormtrooper In Stilettos), que não sendo um ponto alto da obra, contém arranjos interessantes para as guitarras acústicas tocadas por Brian May e John Deacon. Para finalizar o álbum, In The Lap Of The Gods… Revisited, que em nada está relacionada com a faixa sete do mesmo nome. Esta foi composta pelo vocalista nascido em Zanzibar, e é das músicas mais honestas de todo “Sheer Heart Attack”, com uma entrega vocal doce e com um refrão que levou milhares de gargantas a berrar nos concertos. Esta foi tocada nas digressões dos Queen até 1977, tendo só voltado à setlist na última digressão da banda, a Magic Tour, em 1986 – exemplo disso é o famoso “Live At Wembley”. “But I’m no fool, It’s in the lap of the Gods”.

A riqueza de melodias e de estilos musicais presentes nesta fase inicial da carreira dos Queen faz deste um trabalho importantíssimo para o que seria o futuro da banda. Obrigatório para quem queira perceber as bases e os conhecimentos técnicos em estúdio destes quatro músicos.

3.º “The Unforgettable Fire”, U2 (1984)

Início de um novo capítulo na carreira da banda irlandesa, “The Unforgettable Fire”, gravado em Slane Castle e em Dublin, conta pela primeira vez com a participação de Brian Eno. O produtor viria a revelar-se essencial no futuro do grupo composto por Bono Vox, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton. É verdade que os U2 têm um som muito próprio, sendo que este álbum é a primeira grande prova disso mesmo. O sucesso do seu antecessor “War” (1983), com êxitos como Sunday Bloody Sunday ou New Year’s Day, provou ao mundo a garra e a vontade de intervir por parte da banda, mas seria o quarto álbum o primeiro a ir mais além.

A Sort Of Homecoming, o regresso dos que não foram, os quatro miúdos que entram para vestir com orgulho a camisola irlandesa nas suas viagens pelo mundo fora. A bateria de Larry Mullen afirma uma abertura com energia, que evolui para uma rápida conclusão: o som dos U2 mudou. Sim, mudou, mas o resto ficou. Paul David Hewson (Bono) canta a viagem de retorno a casa, de uma ligação que é impossível de se perder, onde todas as pontes vão parar, “Across the sea and land”. Segue-se o primeiro single deste “Unforgettable Fire”, Pride (In The Name Of Love), a música tão associada a Martin Luther King Jr. (1929-1968), ativista norte-americano e defensor dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América, cujas filosofias Bono se identificava, mesmo sendo aplicadas a outras filosofias e batalhas. Este é um dos hinos do grupo, que até hoje fez sempre parte da setlist em todas as digressões. A música dá aso ao elevado registo vocal do cantor irlandês, que é fielmente acompanhado por um riff de David Howell Evans (The Edge), e nos leva durante cerca de 3:50 a querer mudar o mundo e gritar “In The Name Of Love”. Na faixa número três temos Wire, uma composição largamente improvisada por Bono e com influência de Talking Heads, com quem Brian Eno tinha recentemente trabalhado. É a música com o tempo mais acelarado do álbum, perfeita para quem quer conduzir e chegar rápido a um destino. Segue-se The Unforgettable Fire, a música que dá título ao álbum. Entramos aqui na parte mais inovadora da obra, onde o lado ambiental tem uma preponderância significativa em toda a aura da canção. Pequenos sons de guitarra e o sintetizador Yamaha DX7 tocado por The Edge dão alma aos versos compostos em homenagem às vítimas dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945. Promenade, uma das músicas mais suaves dos U2, com o cantor irlandês a cantar num tom mais baixo do que é habitual. Como um cobertor para o espírito, esta faz a passagem para a segunda parte do álbum, que se mantém neste registo mais ambiental e tranquilo.

4th Of July é um pequeno improvisso em estúdio captado por Brian Eno no fim de umas das sessões de gravação, do qual só faz parte Adam Clayton e The Edge, ambos a improvisarem sons, com destaque para a guitarra eléctrica que por momentos é uma espécie de varinha mágica. A ligação perfeita acontece com o começo de Bad. Este é o ponto alto do álbum, e um dos mais altos da carreira da banda. O riff desta música é inconfundível, e leva-nos numa viagem dura e crua, por uma trip de heroína, sobre alguém que cai bem fundo e não se consegue levantar. O registo vocal de Bono é assustador e arrepiante, fazendo das tripas coração, é uma das performances mais honestas de toda a sua carreira como músico. Seguem-se, para voltarmos à Terra, Indiam Summer Sky e Elvis Presley And America. Ambas as faixas são o menor destaque da obra, mas vale a pena referir que são dois bons exemplos da coerência musical que a banda e Brian Eno tão bem souberam trabalhar neste álbum. Para finalizar, MLK, a referência ao sonho de Martin Luther King, que Bono quis respeitar e imortalizar em dois minutos e meio.

“The Unforgettable Fire” antecede o famoso “The Joshua Tree” (1987), um dos álbuns mais vendidos de sempre. Este último não seria o mesmo se o trabalho de 1984 não existisse, pois foi preciso aprender para depois fazer melhor. Para quem gosta de U2, este quarto álbum é simplesmente obrigatório.

4.º “Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy”, Elton John (1975)

O nono álbum de estúdio de Elton John é uma aventura recheada de melodia e uma espécie de autobiografia do próprio e do seu fiel companheiro e escritor, Bernie Taupin. Este trabalho estabelece uma espécie de ligação com o seu famoso “Goodbye Yellow Brick Road”, de 1973, com muitas semelhanças sonoras e com uma produção mais ambiciosa. Entre estes dois houve “Caribou”, de 1974, que trouxe ao mundo The Bitch Is Back e Don’t Let The Sun Go Down On Me, mas que acaba por diferir bastante do conceito dos dois álbuns anteriormente mencionados.

Logo ao início temos o tema homónimo do álbum, Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy, que em jeito de introdução conta como começou a história de Elton e Topin, neste caso Captain Fantastic e o Brown Dirt Cowboy, respectivamente. A faixa é um crescendo que se inicia com simplicidade de Elton e uma guitarra acústica, mas que a meio apresenta uma recheada banda composta por Davey Johnstone (guitarras), Dee Murray (baixo), Nigel Olsson (bateria) e Ray Cooper (percussão). Avançamos para Tower Of Babel, uma melodia alusiva ao mito bíblico da Torre de Babel, uma espécie de justificação para a origem das diferentes línguas faladas no mundo. A verdade é que Elton e Bernie claramente fluiam na mesma linguagem, em conjunto com o resto da banda. A prestação vocal é irrepreensível e a sua estrutura melódica acompanha o dramatismo do cantor. Bitter Fingers, a terceira música desta epopeia leva-nos por entre os dedos mágicos de Elton às montanhas do outro mundo, transportando o ouvinte para um filme como “Alice no País das Maravilhas”, onde tudo é diferente e mágico. A música é divertida e é a primeira do álbum que nos dá realmente vontade de dançar. Tell Me When The Whistle Blows ao início faz-nos lembrar uma música de Barry White (1944-2003), mas logo percebemos que Elton e a sua banda voltaram à terra com um conjunto de violinos fabulosos para um número mais soul. A guitarra de Davey vai “cantando” à sua maneira, com alguns riffs de blues, destacando-se na melodia dos violinos. O que se segue é das músicas mais incríveis que alguma vez ouvi, e com certeza um dos ex-líbris do músico britânico. Someone Saved My Life Tonight. A história desta canção é também autobiográfica, esta conta a tentativa de suicídio por parte de Elton John em 1968, que foi salvo pelo amigo Long John Baldry. A genialidade musical do artista levou a melhor, que sete anos depois compôs em conjunto com Bernie esta masterpiece. Com um piano capaz de reabrir todas as nossas feridas, uma voz sentida e uma banda que nunca nos deixa cair, este é precisamente o diamante de toda a obra, e o único single do álbum. Elton recusou “cortar” a música, pois esta tem quase sete minutos e excede a duração média dos singles.

A segunda parte do álbum abre com (Gotta Get A) Meal Ticket, uma música mais rock and roll, que poderia perfeitamente encaixar no álbum “Goodbye Yellow Brick Road”. O seguimento é feito com Better Of Dead, uma música que vem dar uma shake extra ao álbum, com um piano e um ritmo que nos faz lembrar um ambiente de pub. Uma canção que fala sobre o lado mais premíscuo aos olhos dos seus autores. Ao contrário desta, a próxima faixa começa de uma forma bastante contrastante. Writing traz-nos um ritmo tropical, com arranjos deliciosos na percussão, transportando-nos por momentos para um palco no meio de uma ilha paradisíaca. Para além da percussão, os doces riffs da guitarra eléctrica fazem-nos sorrir por dentro, mostrando uma faceta mais relaxada da obra. A música aborda o processo de escrita, fazendo desta uma divertida auto-avaliação. We All Fall In Love Sometimes, a música que nos traz de volta à melancolia, mas de forma refinada. Os arranjos são arrojados, uma balada para aqueles que ainda sofrem por amor, ou que mesmo não sofrendo, conseguem agarrar algo desse sentimento através da sensível voz de Elton John. A ponte é feita para a última música do álbum, Curtains. Esta é como que uma despedida de uma longa viagem e de uma era de ouro. Uma fantasia colorida que continuamente sobe de registo, chamando pelo fim. É a música melodicamente mais rica em todo o lado B, com um final perfeito para uma performance ao vivo, onde com certeza Elton e a sua banda não se nunca se sentiriam sozinhos em palco. “A once upon a time”, o “Captain Fantastic” e o seu companheiro “Brown Dirt Cowboy” salvaram as nossas vidas.

Esta é uma obra consagrada na discografia de Elton John, contudo, nem sempre merecendo o devido mérito. É essencial para quem explore o artista, e para quem tem curiosidade em explorar álbuns conceptuais. A sua riqueza em arranjos e conteúdo é vasta, não deixando ninguém indiferente à sua audição. Uma experiência obrigatória na consagração do imaginário do músico britânico e do seu fiél companheiro, Bernie Taupin.

5.º “Under A Blood Red Sky”, U2 (1983)

Sim, outra vez U2. Prometo que numa próxima lista irei mais além, mas tenho de voltar a mencionar a banda irlandesa. Este é um álbum ao vivo que marcou a geração dos anos 80 e de todos os fãs de U2. Estávamos em 1983, na digressão do álbum “War”, com Bono, Edge, Larry e Adam a partilhar a sua energia com o público da Europa, Estados Unidos da América e pelo Japão – primeira investida da banda no país nipónico e na Ásia. “Under A Blood Red Sky” é composto por oito faixas da “War Tour”, nos espetáculos de Red Rocks (este disponível em vídeo e conhecido como “Live At Red Rocks”), Boston, e Alemanha – cinco das oito músicas são gravadas no concerto de 20 de agosto deste último país.

O álbum arranca com Gloria, do segundo trabalho “October” (1982), e mostra desde logo a capacidade dos U2 de agarrar o público e de transformar a experiência do espetáculo ao vivo em uma festa. Nota mais para The Edge, que faz do seu slide guitar um som ainda mais vivo do que na versão de estúdio, preparando a música para o seu fernético final, “Gloria…in te domine”. Segue-se 11 O’Clock Tick Tock, um single de 1980, mas que já constava no primeiro EP da banda, “Three” – este último de 1979. Por muito que custe escolher um elo mais fraco, teria de ser esta a sacrificada. Contudo, vamos ver por este prisma: o resto das músicas destacam-se de tal forma, que até a boa performance de 11 O’Clock Tick Tock é abafada pelo resto dos temas. I Will Follow, o único single retirado deste álbum ao vivo, é a música de abertura do primeiro álbum da banda irlandesa “Boy”, de 1980. A energia deste tema é contagiante, com um riff icónico de David Howell Evans. Uma música sobre crescimento e descobrimento, esta acompanha os U2 em praticamente todas as digressões até aos dias de hoje. Para fechar a primera parte, Party Girl, ou de nome oficial Trash, Trampoline and the Party Girl, o lado B do single A Celebration. A música tornou-se popular por esta performance ao vivo em “Under A Blood Red Sky”, fazendo desta uma presença algo regular nos encores até 1989. A canção tem uma vertente mais popular que vem intensificar o conceito de festa nos concertos dos U2, onde o público é parte essencial na vibração da música.

Partimos para a canção mais mediática de toda a obra, a qual traz consigo inúmeras histórias de tardes e noites na discoteca, para além do seu valor intrínseco, e todo o seu contexto histórico/sentimental. Sunday Bloody Sunday, um dos quatro singles de “War”, é mesmo o grande destaque deste live album. Com a sua clássica entrada “this is not a rebel song, this is Sunday Bloody Sunday…”, os U2 marcam o passo de uma canção que fica marcada na história da Música, tendo sido considerada a 272.ª melhor de todos os tempos pela revista Rolling Stone em 2010. A letra aborda o trágico Domingo Sangrento, no qual soldados britânicos dispararam sobre manifestantes irlandeses a 30 de janeiro de 1972, matando 14 e deixando outros 26 feridos. Das 14 vítimas mortais, seis eram menores de idade, e estes protestavam contra a política do governo britânico de prender pessoas suspeitas de terrorismo sem um julgamento prévio e contra as desigualdades religiosas presentes na Irlanda do Norte. Os U2 assinalavam com esta música a sua repugnância à tragédia acima descrita, com uma canção que ainda hoje é obrigatória na sua setlist. Voltando ao álbum, segue-se The Electric Co. (Boy, 1980), escrita por Bono aos 16 anos de idade e fala-nos de terapia por convulsão eléctrica. Para eléctrica basta-nos a música, e esta actuação é suficientemente clara para todos percebermos do que estou a falar. Tem energia, tem garra, e mais importante aqui, funciona muito melhor ao vivo. New Year’s Day, mais um single de “War”, e uma música obrigatória nos Greatest Hits da banda. Mencionando de novo a lista elaborada pela Rolling Stone em 2010, New Year’s Day foi considerada a 435.ª melhor música de sempre. Neste “Under A Blood Red Sky” a canção tem uma performance inesquecível, provavelmente a melhor prestação vocal de Bono neste álbum, acompanhada de uma banda com o ‘pé no acelarador’ e que nos faz esquecer a versão de estúdio. Para finalizar, 40, a última música do terceiro álbum. Esta foi gravada já no fim das sessões de gravação, onde The Edge toca baixo e Adam Clayton a guitarra eléctrica. Em jeito de ‘adeus’, 40 tornou-se uma música clássica no encore dos espetáculos ao vivo da banda, com um significado especial para todos os fãs. “How long… to sing this song?”, já cantada pelo público, fecha esta experiência dos U2 ao vivo, revelando que estes quatro jovens rebeldes sabiam bem o que estavam a fazer.

É uma obra essencial para quem quer conhecer melhor álbuns ao vivo de referência, sendo que este mostra a nú a energia e a mensagem da banda. Tem uma duração aproximadamente de meia hora (mais precisamente 35 minutos), o que torna uma a experiência rápida e intensa. Revela os U2 no pico da sua juventude, demonstrando uma banda rebelde mas já com maturidade suficiente para passar ao próximo nível. É um marco na discografia do grupo e um cartão de visita obrigatório para aqueles que alguma vez duvidaram da banda ao vivo.

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